Várias vezes nesses tempos de internet, me deparei com a "Teoria das Janelas Quebradas". É possível até afirmar que sim, é um fato, já deixou de ser teoria. Para quem não sabe, ela sua Ita que uma pequena desordem que se sustenta, tende a crescer pela ação de terceiros. Uma casa abandonada com janelas quebradas, tende a receber mais e mais pedras, até nas janelas sãs.
Num mundo de comodidade cada vez mais presente, o descuido é quase uma regra. Quando passei a morar sozinho, vi a dificuldade que reside em cuidar de um lar. Tanto os consertos a se fazer (a casa ficou na mão de inquilinos por quase 20 anos), como pelo serviço diário de limpeza e asseio. A frente da casa estava com as paredes sujas de barro, marcas de brincadeiras infantis. Tive de lavar as paredes e em breve, desejo repintá-las, para apagar todos os resquícios desse descuido.
E por essa introdução, reflito outra vez sobre as pessoas que estamos criando para o mundo. Há janelas quebradas em cada relacionamento. Algumas com buracos enormes, vidros pontiagudos e perigo constante. Outras aparentam solidez, mas no canto superior, há um vespeiro pronto para ser importunado. Relegamos aos aplicativos, joguinhos, entretenimento dirigido, a tarefa de distrair nossos filhos, substituindo a presença, o carinho, o envolvimento. Vamos nos tornando estranhos.
O mais engraçado é perceber que isso ocorreu (sim, já foi. Estamos no prejuízo, administrando danos), porque nós fazemos um mundo que exige constância, exige presença, exige agilidade em prol do comodismo. Não sabemos como desacelerar ao mesmo tempo que estamos cegos para o óbvio: os controles estão em nossas mãos.
Algo como ver a janela quebrada e no lugar de ir até lá, improvisar um remendo ou mesmo trocar o vidro, permanecemos com as pedras nas mãos. A direção do mundo está a nossa frente, os pedais e o volante, e continuamos acelerando, trocando marchas, sem nos dar conta disso. E os afetos, a ideia de Saint-Exupéry de tornar-se responsável pelo que se cativa, acaba ficando cada vez mais fora de moda. Pense sobre suas janelas. Pare o carro e veja o mundo ao seu redor. Venha ver o Sol.
