A arte de não ceder a raiva passa por um processo químico-físico (para mim ao menos) surpreendente. A adrenalina despejada em meu sangue demora a se dissipar. O cérebro sucumbe como uma presa do abraço de uma sucuri, afogando toda uma enciclopédia de impropérios e lembranças. Após o "dez", as consequências físicas se acumulam e o conflito entre a explosão muscular e a serenidade cozinha as fibras e entorpece os membros como se uma queda ou um choque tivesse percorrido dos ombros às pontas dos dedos, do quadril até a planta dos pés.
Porém, após esse momentâneo distúrbio, a mente questiona primeiro as escolhas que levaram "o oponente" à geração dessa reação. O julgamento predispõe a culpa e a avaliação demora a encontrar o fio de raciocínio que leva de volta à razão. Culpamos sempre o outro e é difícil avaliar se isso é mesmo o correto. Em tempos atuais, isso é mais difícil ainda. As pessoas estão acomodadas em sua visão pessoal dos fatos e pouco se questionam. O brasileiro, então, é o mais idiota dos acomodados. Se posiciona como plateia e deixa o circo pegar fogo mesmo, esquecendo que nesse picadeiro, se o mastro central ceder, a lona envolve essa mesma plateia. Nesse caso, no entanto, não é ficar ou não com raiva, mas sim reagir coerentemente. Julgar sempre será mais fácil, quando se põe no topo da montanha, a observar "arvorado" de sua própria verdade. Mas, e se ...
Permanecerei tentando evitar, contando até onze ou doze e procurando (ainda que isso leve tempo) analisar a situação por todos os lados. Um, dois, três, quatro ...
Ilustração by Revista Conexão Literatura (no Facebook)
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