domingo, 30 de novembro de 2025

Nomes de Filmes

Quarta, por recomendação de minha filha, assisti 'Fences' (2016), crente que estava vendo o filme em que se baseou o primeiro trabalho escrito e publicado dela em psicologia. Só que o primeiro trabalho publicado dela, foi sobre outro filme: "Straw- Até a Última Gota". Me confundi com o nome em português. 

A despeito da psicologia envolvida, que é o tema do trabalho, o que me atrai a comentar é o título em inglês e a adaptação em português. Começando por 'Um Limite Entre Nós', que, na minha opinião, é inadequado. Talvez, 'Os Limites de um Homem', fosse enigmático e revelador ao mesmo tempo. A tradução literal do título original, 'Cercas' mostra bem isso. Afinal de contas, é sobre todas as barreiras que uma personalidade difícil constrói ao longo da história de sua vida.

O cinema, ou melhor, a Ancine (será que ela mesmo?), acumula várias situações assim, de erros e acertos. Vejam, por exemplo, 'Jaws' (1975). O cartaz mostra uma mulher na linha d'água, em posição de nado e um enorme focinho de tubarão apontado para ela. 'Maxila' ou 'Mandíbula', não teria o impacto de 'Tubarão'.

Há exemplos diversos. E há grandes "correções" também. Dois clássicos espetaculares, coincidência ou não, com Morgan Freeman atuando neles, foram muito bem "traduzidos": 'The Shawshank Redemption' e 'The Bucket List' foram lançados aqui como 'Um Sonho de Liberdade' e 'Antes de Partir'. "A redenção de Shawshank" aliás, tem a ver com o título da história que inspirou o filme: "Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank", um conto de Stephen King que fala justamente sobre um plano genial para fugir da prisão. Já "Lista de Desejos" não é, na minha opinião, tão bom como "Antes de Partir".

Há outros exemplos, claro. Alguns, bem incomuns. E voltamos ao título do filme que eu deveria ter assistido, ao ser recomendado pelo trabalho. 'Straw' em tradução literal quer dizer 'canudo' ou 'palha'. No entanto, a expressão idiomática, artifício muito usado no inglês, quer dizer justamente o que o título em português anuncia: "Até a Última Gota". A expressão "the last straw", seria em tradução livre: a gota d'água.

Como cantou Chico Buarque, lá nos idos de 1975, "deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa. E qualquer desatenção, faça não: pode ser a gota d'água". Já denunciava, então, a desigualdade entre homens e mulheres. Na letra, especificava o amor, a relação, os dissabores de um compromisso. No filme, há muito mais do que isso. Recomendo. Tanto "Straw", como "Fences". Aliás, traço até um paralelo com "Um Dia de Fúria" (1993) onde Michael Douglas faz algo muito parecido com o que fez Taraji Henson. Esse também, com um título em inglês bem direto: "Falling Down", "desmoronando".

Sigo procurando ler nas entrelinhas, sempre sem julgar. Enxergar cada vez mais fundo, ser cada vez mais curioso. Há magia nisso, sabiam?

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Somente Pensamentos Autorizados


"A realidade é a música do vazio", afirma Frank Wilczek, Prêmio Nobel de Física em 2004, ao elaborar uma hipótese sobre o Éter, o vácuo do espaço. Ele entende que, se as partículas elementares da matéria são vibrações, como indicam as últimas descobertas, então o "nada" é a ausência de vibração significativa, ou seja, o "silêncio da matéria".

Adoro viajar nesses raciocínios sobre física quântica, teórica e aplicada, mesmo tendo sido um aluno entre o ruim e o razoável na escola. Descobrir "do que" e "como" as coisas do mundo são feitas é muito interessante para mim. Porque conhecendo e compreendendo essas teorias, acabo por esmiuçar comportamentos e atitudes.

Há um sketch de humor, muito compartilhado a respeito do pensamento do homem casado. O humorista cita que a mulher deve compreender que "quando o marido diz que não está pensando em nada, realmente é isso que significa: nada". Um lapso, digamos, em que os neurônios silenciam. Como estar diante de um balcão de um comércio, aguardando ser atendido. Você fica ali, pensando em mil coisas, formulando teorias, parado/a e não ouve um pio sequer vindo do lado de dentro. Parece que o mundo parou diante de você.

É por isso que o silêncio é tão importante. Calar, quando o mundo exige uma resposta, é, antes de uma salva-guarda, a própria resposta. A mente se refugia por trás da porta onde se lê "apenas pessoal autorizado", não por medo. A ideia sempre deve ser preservar-se. Pense a respeito de suas discussões, por exemplo? Veja o quanto é ofensivo você discutir e subir o tom com as pessoas. Se você silencia diante de um argumento contrário às suas convicções, abre espaço para o raciocínio escarafunchar aquele argumento contrário até a exaustão.

Voltando a metáfora do balcão e da porta com o aviso por trás dele. Lá dentro, no silêncio, há toda uma maquinaria, uma biblioteca de situações, de experiências a serem reavaliadas diante de um argumento em contrário. Se você faz barulho, você se distancia da razão. Já falei aqui sobre o fio de água para encher o copo. Quanto mais próximo da fonte, menor o ruído.

Pela proposta de Wilczek, não existe "vazio", mas sim "silêncio", inércia. Mas não é "nada". Parmênides, filósofo grego, dizia que "se algo não pode ser falado, pensado ou relatado, é absurdo dizer que (por conta disso) não existe". Se juntarmos as duas visões (mesmo que sobre coisas distintas), entendemos que o mais correto é aceitar a ideia de que há coisas nesse mundo além da nossa compreensão. Com o passar do tempo, provavelmente, obtenhamos mais parâmetros e diretrizes para reavaliar esse conhecimento. Por hora, refugie-mo-nos no silêncio, atrás de nossos avisos de "somente pessoal autorizado", para maquinar sobre aquilo que não compreendemos.

Se creio, por exemplo, que meu Corsa é verde, apesar de constar "azul" no documento, é prudente maquinar minha compreensão das cores, experienciar, até encontrar uma argumentação convincente para mim e para os fabricantes sobre aquele tom de verde ou azul da lataria. Idem para outros embates filosóficos, políticos, religiosos e afins.


segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Prometeu Moderno

Eu li Mary Shelley ali pelos anos 80, ou antes. E meu conhecimento juvenil não alcançou a profundidade da obra. A maneira como Guillermo del Toro apresenta a humanidade para a criatura é impactante. A gentileza encarnada em um ancião cego, para nos dizer que é vivendo e aprendendo com os percalços que se compreende que devemos ser gentis e compartilhar conhecimento sem medir quem o receberá. Uma jovem inglesa, filha de um filósofo e cheia de amigos amantes do 'porque' e dos livros, concebe sua obra-prima e expõe isso com clareza. Enquanto há compreensão e troca de conhecimentos e gentilezas, a paz só pode ser atormentada por terceiros com outra visão do mundo, que insistem em impor sua vontade sem respeitar as liberdades individuais.

A criatura sem nome ainda ensina outras várias lições. Me apeguei à sua maldição, no entanto. A imortalidade. Nós desejamos a vida e nos desgastamos nessa tola insistência em dobrar os outros a nossa vontade. Desejamos a imortalidade para manter nossa visão idílica de mundo perfeito, impondo nossos pontos de vista de forma egoísta e tacanha. Quando o modo de ser imortal, é morrer. 

Minha mensagem de "bom dia" aos mais íntimos hoje, veio acompanhada da frase: "Você nunca saberá quantas vidas transformou. Mas elas saberão!" É isso. É transformar vidas, compartilhando conhecimento, gentileza e empatia. Esse é o caminho para ser imortal. Mary Shelley, no entanto, mostra-nos outro lado da imortalidade: o lado da solidão dos incompreendidos. Por isso tantos filósofos se recolheram na solidão como forma de desenvolver sua obra., para tornarem-se imortais pela sua obra e não apenas por ela. A vida e os raciocínios desenvolvidos ao longo dela os transformaram em imortais, pois nos mostraram o óbvio que passamos a não ver, arvorados em nossa vidinha comum, ansiosa e pueril. O mostro, a criatura, sofre por que compreende que estará sempre só, sendo consumido pela solidão, daí o subtítulo do livro de Mary Shelley: "O Prometeu Moderno", ou seja, o titã acorrentado que sobre com o abutre devorando seu fígado. Genial.

Devemos tentar, creio eu, a proposta pela gentileza, pela empatia, pela difusão do conhecimento. Fazer isso com disciplina, resiliência e sem 'entornar o caldo' diante da sequência aparentemente interminável de derrotas. Somos um punho diante de milhares de pontas de faca. E devemos sangrar sem medo, repetindo as ações de bondade com perseverança e alegria, sempre! Sejamos imortais em teimar pelo amor ao próximo. Não temos nada a perder, quando agimos assim.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Reflitam por Si, ou a sociedade que troca letras por conveniência

Tenho uma visão que a maioria entenderá como horrorosa e absurda, em se tratando do que escrevo e do modo como prego meu entendimento sobre as relações pessoais de respeito e gentileza.  Talvez os animais, se tivessem a consciência que nos foi presenteada pela Grande Mãe Natureza, entenderiam esse meu ponto de vista. É assim:

A humanidade criou a drenagem e a rede de esgotos, para escoar o excesso de água da chuva e também seus dejetos e restos de água potável utilizada em limpeza. Nessa rede subterrânea, a população de um tipo de roedor sobrevive e se multiplica: chamamos de ratazanas. Quando o alimento fica escasso por ali, alguns costumam se aventurar na superfície. A administração das cidades, por conveniência, procede a regulares "limpezas químicas", controlando a população de roedores.

A única espécie viva que não se submete a um controle, é a raça humana. Nossa constituição, por lei, baniu a pena de m0rt3. Antes que você que me lê, diga que estou me contradizendo, pregando a pena de m0rt3, quero que se lembre do que disse em outro texto, a respeito da compaixão: devemos perdoar as pessoas que demonstram poder em se erguer e recomeçar. Alguns de nós, optam por manter um ritmo de vida abominável, que inclui acumular penas por ass4ssin4t0s. Vários, aliás.

Há, entre as gentes, indivíduos que encarnam um modo de vida que nomeio como "cômodo". Esse modo de vida, estabelece que "não se mexe no que está quieto" e mais: "não se mexe no que está errado, se quem faz errado puder lhe prejudicar". Os "ratos cômodos" se proliferam sem controle. Justamente por serem humanos e merecerem uma indiscriminada compaixão da maioria condescendente.

Você deve calar "o bico", ficar "manso" e "pagar pedágio", se quiser preservar os dentes e a vida. É uma zona de "dês"conforto. Algo como ser um ratinho cinzento que foi viver no esgoto por falta de opção e que, quando a administração pública joga veneno para controlar a população de ratazanas, sucumbe sem poder se manifestar. Não por falta de igualdade, de ser considerado e ouvido por estar ali por outras consequências, mas sim, por ser conivente, por preservar os dentes. Por aceitar as m3rd4s do mundo ao seu redor.

Bom, numa sociedade em que você precisa usar números no lugar de letras para não ser censurado, nada mais surpreende. O problema é que estamos nos acostumando ao "dês"conforto de adequar-se as necessidades de alguns e não buscar o consenso e o bem comum. Entendo que se ocorre uma fatalidade pode ser dolosa ou culposa como específica a lei. Mas entendo que isso é apenas NA PRIMEIRA OCORRÊNCIA. A segunda vez, não pode ser "dolosa". Quantos estão com vários crimes fatais na ficha corrida, e vivem ou do que os impostos provem, ou enfiados em locais onde podem causar o "dês"conforto aos inocentes? Inocentes? Não seria "coniventes"? É assim que eu penso e não obrigo ninguém a me seguir. Reflitam por si.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

A Rosa é dela mesma

Pensava sobre a posse ontem, após assistir um filme que entendi pela sinopse ser um terror, mas não passava de um suspense com ação e final romântico. Gostei da trilha sonora, como sempre. E não me lembro bem como surgiu esse pensamento, mas me fez refletir muito sobre minha oração matinal e passar a usar nomes no lugar de títulos. Agradecer pelo sucesso de sua filha e de sua ex-mulher por exemplo. Entendi ser errado usar esse tipo de pronome. Não há nada errado, pois todo o mundo faz uso dessas designações, mas parti dessa reflexão para outra maior: a partir do momento em que você denomina uma pessoa como "sua", há dois caminhos. O primeiro é inevitável e forma a base da relação com essa pessoa, ou seja, tudo deve se pautar pelo respeito. É sua a responsabilidade de dividir batalhas diárias, conquistas, conhecimento, felicidade. É sua a responsabilidade de cuidar, acarinhar, incentivar e aplaudir. É sua essa pessoa, para compartilhar contigo a existência e a sobrevivência.

O segundo é a posse e a imposição de vontade. E então surgiu a frase que me fez escrever esse texto, que é: quando uma pessoa tem posse sobre outra, transforma-a em objeto e esses, são descartáveis. Dessa reflexão me veio a compreensão sobre o amor não ser posse. Se você colhe uma flor, você decreta sua morte. Vê-la em botão, desabrochando, perfumando, perdendo as pétalas, extrusando o bulbo e se transformando em fruto é amá-la de verdade. Amar é respeitar a individualidade de cada um, sem "podar". Amar, é deixar ir, mas acolher quando necessário. É respeitar silêncios, autenticidade, possibilidades e argumentos. Não é concordar sempre, mas também não passa por imposição de vontades suas.

Hoje no mundo, falta amor justamente por conta dessa nova educação de massa. Há a educação cultural, que ajuda a moldar o indivíduo a seu meio e essa educação, está seriamente comprometida pela imbecilidade perpetuada. Precisamos reverter esse quadro ao nosso redor. Fazer o que nos cabe, mudar o que é possível, amar com respeito, empatia e sem posse. Dá pra mudar o mundo? Bem, somos especialistas em "jeitinho", não é? Devagar, vamos longe.

Dia a dia de Solitário

Eu estou fazendo errado. Estou fazendo errado? Não escrevi um texto no sábado e também no domingo. Morar só, exige alguma disciplina e tempo muito bem equacionado. Sábado é dia de limpeza e domingo, de preguiça. Porém a proposta continua a mesma: fazer o bem, ser gentil e sorrir sempre. Acreditar que são esses os detalhes que fazem o mundo ao nosso redor ser melhor. Escrever é um conflito para mim. Ao mesmo tempo em que deixo a imaginação e as emoções me guiarem, minha mente se abre a inúmeras associações e novas ideias. Quando desejo manter o foco em uma só história, essas associações bombardeiam o assunto principal e torno-me dispersivo. Por isso, sinto necessidade de me envolver com tudo ao mesmo tempo agora e em obter reconhecimento disso, poder de palavra, como professo no Facebook (visite minha página e verás).

Tenho três grandes histórias por escrever. Estão "meio" no papel e muito na minha cabeça. Ser gentil com o próprio ritmo pode não ser suficiente para pô-las todas na impressão diagramada e com ISBN definido, mas é esse o desejo. Memento Mori. Ainda mais agora que vejo isso claramente no dia a dia, com pessoas que sempre fizeram parte do meu mundo irem embora. É preciso saber viver, canta Roberto. A letra aliás, é uma "poesia vento", daquelas que floreia o assunto com belas frases, mas só. Não transmite uma lição. Fala-se de pedras no caminho e escolhas, mas não se conclui numa "lição de moral". É preciso fazer o certo, mesmo que isso seja uma batalha em que se luta só. Eu defendo a gentileza como forma de harmonizar o mundo, torná-lo mais UP. Sou gentil até comigo, ao tocar a vida no meu ritmo, na esperança que dê tempo para tudo. Porém é uma batalha imensa você decidir entre o prazer e a necessidade. Escrever é maravilhoso e me surpreendo com a capacidade que desenvolvi nesses 5 anos, quando decidi que me tornaria escritor de verdade e desenterraria das gavetas físicas e mentais todas as doideira que povoavam minha mente. Já lancei um livro físico. É uma coletânea de contos, mas é um livro. Quero lançar outro em 2026. Uma fantasia. No meu ritmo, com perseverança, gentileza e esperança de ter muito tempo pela frente.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Respire e Faça

Três frases me moveram até o papel hoje: "Apenas em águas tranquilas, as imagens se refletem sem distorção", é a primeira. A tranquilidade deve se instalar em nosso raciocínio no momento da resolução dos problemas. Quando você se concentra no seu conhecimento para destrinchar o caso, deve fazê-lo com foco. Quando a solução se apresenta, devemos recebê-la com serenidade e quando aplicamos a resolução, usamos a confiança que o conhecimento nos dá. A segunda frase, é: "O maior remédio para a raiva é o atraso". Ela corrobora essa atitude diante da resolução de problemas.

Se você precisa de um tempo que não tem por conta de outros, é necessário uma análise mais aprofundada no plano geral, pois alguém, em algum ponto dessa cadeia de urgência, pode dispor de tempo extra e não se dá conta disso. E por não se dar conta, exige pressa, que se transmite num efeito dominó por várias pessoas e suas necessidades. Isso gera irritação compartilhada e inútil, que só faz mal. Agita as águas de todos os reflexos.

E a terceira frase é: "Você também pode cometer uma injustiça, simplesmente não fazendo nada". A omissão é um pecado brutal. Se insinua em nossa mente com facilidade, ao menor sinal de possibilidades dentro do raciocínio. "E se eu me omitir?", calcula nosso consciente. "Se eu só deixar acontecer e ver o circo pegar fogo?" Depende, claro, da avaliação de seu conhecimento e capacidade de atuar em cada uma das situações que se apresentem no seu dia. Sua influência é subestimada por você mesmo. Às vezes, uma palavra não omitida, um gesto de solidariedade, pode fazer muito.

Tratar as pessoas com dignidade, por exemplo, com respeito pelo todo do qual fazem parte, já é um grande avanço contra essa omissão nossa de cada dia. Atuar, provoca coisas boas, movimentos pelo BEM COMUM. Isso, aquieta as águas e desvenda os mistérios. Respire! E faça!

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Sobre a Ilusão que Somos Nós - Final

Eu gosto de guardar frases que colho em livros e páginas na internet. Em 21 de janeiro de 2019, guardei essa de Carl Sagan (talvez, não se pode confiar nessas imagens). E no dia 24, o algoritmo me trouxe uma sacola de livraria com uma foto, que dizia: "livros são abelhas que levam o pólen de uma inteligência a outra".

Desenvolver teorias baseadas em seu conhecimento é uma das nossas faculdades mentais. E é surpreendente quando você obtém conhecimentos diversos e os aglutina em uma linha de raciocínio que pode lhe assombrar. Ao mesmo tempo que refleti sobre os conhecimentos que adquiri sobre a matéria e as coisas no meu universo, questionando pilares da civilização nos três textos anteriores, entretinha a mente com filmes da série "The Conjuring", que segundo consta, foram baseados em "fatos reais" (santa redundância, Batman! Se são fatos, são reais!).

A frase sobre os livros é a justificativa para minhas reflexões: um quebra-cabeças vai se encaixando e dando-me a visão cada vez mais clara do universo "pessoal" - uso "universo" pois ele é a medida do conhecimento de cada um. 

Já a frase de Carl Sagan me conduz ao modo como o conhecimento civilizatório foi incutido em mim por meus pais, irmãs, amigos e professores, até eu criar um método próprio de aprender e deixar de acreditar, para descobrir e saber sobre esse universo pessoal. É conflitante você contestar tudo, pois é assim que a situação se apresenta nos textos anteriores e, ao mesmo tempo, temer os que dizem ter passado por isso e aquilo e, que há algo que não estou levando em conta. 

Devo prosseguir, no entanto. Richard Bach diz em seu livro "Ilusões" (hehehe), que "personagens de ficção às vezes são mais reais que pessoas de carne e osso e corações pulsando". Às vezes a ficção nos coloca em contato com outros pontos de vista e, como consequência, com propostas de modificações para o nosso modo de pensar. A enorme pressão que anos de construção da civilização e de todas as crenças que a humanidade desenvolveu, não pode simplesmente esvanecer ao entender que tudo é ilusão, em se falando de matéria. São coisas que estão além da percepção da consciência humana. Você cria a percepção de algo, baseado no tamanho do seu conhecimento. Exemplo?

Imagine-se em um campo de relva rala, com tufos de flores silvestres aqui e ali, sob um céu sem nuvens e Sol das cinco da tarde, às suas costas. Para qualquer ponto que você olhe, seu horizonte é formado pela linha do limite desse campo. Você consegue imaginar um drone com câmera, que transmite diretamente para o seu pensamento, sua tela mental? Pois bem, a imagem é você, de pé nesse campo, de olhos fechados. Então, o drone começa a subir e a câmera continua a apontar para você. Cem metros, mil, dez mil, um quatrilhão de quilômetros, vencendo a gravidade da Terra e o campo gravitacional do Sol. Você não vê mais a Terra ou o Sistema Solar. Consegue imaginar essa progressão a cada segundo? Sua mente irá buscar toda a referência em "filmes" semelhantes, pois você constrói suas experiências baseadas no que viu, ou viveu, ou sentiu. A percepção da sua consciência é limitada pelo seu conhecimento, entendeu?

Compreender que tudo o que nos cerca é, na verdade, uma grande ilusão, levará muito tempo. Por isso, não quero acreditar, quero saber!

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Sobre a Ilusão que Somos Nós - Parte 3

Um dia, Siegfried foi questionado por um amigo: "você nunca percebeu que tens uma cara de coitado?" Não respondeu de pronto. Buscou na memória a própria face no espelho e acabou, com um bom tempo de reflexão, por concordar. Desde então, quando a oportunidade surge, posta-se defronte a desconhecidos, usando uma lorota qualquer para pedir uns trocados. Alguns dão. Foi Siegfried quem me parou na rua ontem, pediu um minuto e perguntou se sou católico. Poderia lhe explicar, mas disse "não, não sou". Ele contra-argumentou, perguntando se era evangélico ou espírita. Mas, sua oportunidade perdeu força e sua "cara de coitado" se transformou em cara de espanto.

Não nego que, na hora do aperto, vou apelar para Deus. É algo cultural, que todos têm dificuldade de abandonar. Mas cada vez mais creio numa necessidade expressa do consciente de se agarrar em alguma crença. Eu mesmo tenho essa necessidade, por isso, saí do encontro com Siegfried também espantado e reflexivo. Desnecessário dizer que a reflexão sobre a matéria ainda conduz meus pensamentos. Maravilhado que estou com cada coisa que meus olhos capturam, pensando na sua solidez e na sua ilusão "quarkiniana". A energia entre as não-partículas se torna matéria.

Seria necessário mesmo um arquiteto para isso? Ou trata-se de algo naturalíssimo.

A física teórica explica que o grafeno ou o plasma podem servir como barreira invisível protetiva, como um campo de força da Sue Storm, dos quadrinhos. Seria a transformação de energia em matéria de forma prática. Ionizar átomos, segundo a pesquisa que fiz, ou desenvolver uma barreira de grafeno, com um átomo de espessura. Ou, segundo nossas crenças, a junção de átomos que forma toda a matéria ao nosso redor, que se for partida até o limite, resultará nos quarks, que se sustentam visíveis por bilionésimos de bilionésimos de segundo antes de desaparecer.

Somos levados a crer, pela civilização, que existe algo realmente além de nossa imaginação. Temos Miguel Nicolelis falando sobre isso, temos Richard Dawkins, temos Baruch Espinosa e outros. E temos Siegfried, crendo em sua cara de coitado, usando sua fé para ganhar uns trocados. Há ainda, algumas reflexões de gente mais letrada que eu. Doutora Andrea Vermont, por exemplo, cita que nós nos responsabilizamos por uma dívida eterna: o pecado. Ela explica que nós buscamos a Deus por obrigação. Muitos de nós, pelo menos. No exemplo do corte de entrevista que assisti, ela cita a pessoa recebendo a família para o almoço de domingo e após um papo que se estendeu demais após o almoço, pede que todos se retirem pois tem de ir à missa e seria um pecado não ir. Ela explica que devemos buscar a Deus com o coração e não por obrigação. Me situo quase como um discípulo de Espinosa, ao buscá-La* na alegria, na beleza da paisagem e no sorriso das pessoas que interagem conosco. Estou certo? Não sei. E cada vez me importo menos em saber se é esse o caminho certo para minha consciência.


* o “La” é proposital, pois creio cada dia mais na Deus Mãe Natureza. Estranho escrever assim, não? É proposital também.


 

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Sobre a Ilusão que Somos Nós - Parte 2

O símbolo do infinito, para muitas culturas, é a representação do número 8, na horizontal. Talvez esse seja o propósito da matéria: transformar-se indefinidamente, sem começo, sem meio e sem fim. Sim, estou continuando a reflexão de ontem. Se você que está aqui, não a leu, faça isso. Como lá disse, estou entendendo que o que chamamos de matéria, na verdade, é algo que no universo quântico, não existe. Aquela história das minhas aulas de ciências a partir da 4ª série, quando se dizia que dividir a matéria ao meio, até não poder mais dividir, levaria ao átomo, foi ultrapassada. E eu vi isso acontecer ao longo desses meus 60 anos. Os elétrons que vivem na periferia do átomo podem até mudar de lugar para se juntar a outro átomo e formar substâncias, mas não se tocam, não se fundem. E são formados por partículas ainda menores que ao serem detectadas, desaparecem num instante. Portanto, somos todos feitos de nada.

É totalmente maluco pensar em algo assim, claro. E provavelmente (por enquanto) apenas nós, um "acidente evolutivo" de cérebro descomunal, podemos pensar assim. Um cachorro, por mais inteligente que seja, não faz contas ou resolve equações. Ele apenas vive. A Mãe Natureza é tão maravilhosa que há um fungo se desenvolvendo em Chernobyl, consumindo o veneno da radiação ☢️. 

E qual o propósito disso, se não for o de transformar-se e transformar-se até virar tudo energia outra vez e depois matéria novamente e recomeçar o processo? Para quê?

O advento da consciência é a maior revolução conhecida em termos de evolução da Natureza. A partir do momento em que o Homo sapiens passou a ser consciente de si e do mundo, passou também a se perguntar esse "para quê". É preciso levar em conta que, de repente, a pequena mutação em um gene, de um vírus qualquer, pode causar uma epidemia catastrófica para a raça humana e o despreparo pode ser fatal. Ou então, uma revolução no Sol, um asteroide enorme, uma onda de terremotos, que seja. O restante do Universo irá continuar, mesmo sem humanos para pensar sobre ele.

É por isso que seria mais prudente, pararmos com essas tolas disputas que insistimos em cultivar. Se unir numa onda de amor e respeito uns pelos outros. Ou será que, ao nos prover de consciência, a Natureza nos forneceu a sentença  para o fim e nossa missão seja mesmo e de nós digladiarmos até a extinção? O planeta agradeceria, tenham certeza disso.

domingo, 19 de outubro de 2025

Sobre a Ilusão que Somos Nós


Hoje acordei científico. Ontem, zapeando pelo YouTube, deparei com uma reflexão que tomou conta do meu pensamento até o sono me vencer: somos ilusões! Tão certo como o Sol nascer por trás das nuvens desse dia borocochô. Vamos aos pontos que confirmam essa teoria (teoria?):

1) O Universo, segundo algumas correntes de pensamento, tem o tamanho da sua imaginação. Quanto mais conhecimento você adquire, maior ele fica, ou seja, é mutável também.

2) Sua imaginação, sua mente, seus pensamentos, suas reflexões; se tudo isso não for registrado, perde-se pelos vermes ou pela proteínas beta-amiloide (do Alzheimer). Assim sendo, é gerado na sua matéria cerebral, mas se não for transformado em material, esvanece.

3) Sabe-se que a menor partícula da matéria conhecida e registrada pelos cientistas, são os quarks, mas ao serem detectados, eles desaparecem em um bilionésimo de bilionésimo de segundo (tempo), pois são instáveis se separados. Os aceleradores de partículas promovem a colisão de nêutrons e prótons e assim os quarks são registrados. E desaparecem! 

4) Outra particularidade desses "tijolos fundamentais", se refere à carga magnética. Elas se repelem. Ao levarmos um elétron em direção a outro, tentando juntá-los, obteríamos a energia perfeita da fusão. Oppenheimer, lembrem-se, obteve a fissão (separação). Portanto, quando imaginamos estar segurando uma rosa, na verdade, estamos sentindo essa descarga de energia de repulsão entre cargas magnéticas, que interpretamos como "toque". 

Não tocamos em nada de verdade. Primeiro, por não haver nada para o “tocar” ou para “ser tocado”. É uma loucura pensar sobre isso, mas as provas científicas são cada dia mais evidentes. Tenho exprimido reflexões nesses textos a respeito de manter-se “na vibe” da positividade, da alegria em ser gentil e exalar bondade, do otimismo perpétuo. A insistência em sempre enxergar o copo “meio-cheio”. E outra reflexão me assola:

Se nós insistimos nessa proposta de ser sempre gentis e positivos, acabamos espalhando essa “coisa” entre nossos próximos e iniciamos um movimento em cadeia, uma sequência de acontecimentos que leva a difundir uma onda de bondade e esperança. Isso nos une. É a ideia básica das propostas religiosas também: amarmos uns aos outros, que significa estar todos trabalhando para o bem comum.

Seria a grande fusão o real propósito da matéria? Ou seja, evoluir a tal ponto que tudo se concentre em um buraco negro supermassivo no final de tudo. Para quê? Bem, tenho uma teoria. Como disse Neruda: começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto e no meio você coloca ideias. Algo como: “O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás”. Quem já leu a Torre Negra, sabe do que estou falando.

Todos os Caminhos

Tudo passa e se transforma, quando a alma é grande e generosa. Uma singela frase de uma oração Celta, onde muito mais do "Humano do BEM" é exposto em um mantra do que apelos à espiritualidade. Rubem Alves, numa entrevista a Antônio Abujamra, diz, num desses cortes de vídeo que circula pelas redes, que "nós só oferecemos sacrifícios para Deus". Pedimos graças e oferecemo-nos para o sacrifício, como Jesus. E o exemplo que Jesus mostrou, não foi o de enfrentar o calvário e a cruz. O "caminho, a verdade e a vida", significa amar o próximo e desejar sinceramente o BEM. As orações são súplicas e não expressam uma afirmação no desejo do "ser melhor a cada dia".

E então, nessa minha ânsia de conhecer sobre tudo e ouvir todos os lados para formar minha ideia, me deparo com uma oração pagã, onde a Deusa Mãe Natureza é exaltada e as frases expressam desejos por sempre fazer o BEM. Vejam:

Que jamais, em tempo algum, o meu coração acalante ódio. Que o canto da maturidade jamais asfixie a minha criança interior. Que o meu sorriso seja sempre verdadeiro. Que as perdas do meu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida. Que a música seja minha companheira em momentos secretos, comigo mesmo. Que os meus momentos de amor contenham a magia de minha alma eterna em cada beijo. Que os meus olhos sejam dois sóis olhando a luz da vida em cada amanhecer. Que cada dia seja um novo recomeço, onde minha alma dance na luz. Que em cada passo meu, fiquem marcas luminosas de minha caminhada em cada coração. Que em cada amigo, o meu coração faça festa, que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins. Que em meus momentos de solidão e cansaço, esteja sempre presente em meu coração a lembrança de que tudo passa e se transforma, quando a alma é grande e generosa. Que jamais, em tempo algum, me esqueça da Presença que está em mim e em todos os seres. Que o meu viver seja pleno de Paz e Luz.

Há, inegavelmente, uma soma de desejos pela melhoria como pessoa. Um pedido, sim, de ser "melhor a cada dia". É o poder sobre o que está em nosso alcance: nós mesmos. Oferecer-se em sacrifício e usar seu tempo como penitência, é submeter-se em rebanho. Na minha opinião, ao menos. No lugar de saudar a Natureza e suas belezas, de saudar a possibilidade de ser melhor e receber a benção de viver a partir de cada nova manhã, suplicamos e oferecemos penitência, sacrifício e obediência cega.

É certo que essa transformação depende de muito esforço e dedicação, disciplina, resiliência. Não é fácil subverter um hábito. Porém, é uma alegria ter essa oportunidade. Vamos?

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Sobre tornar-se um Samba

A difícil arte de viver, é daquelas reflexões que nos faz rir da tragédia que somos nós. Claro que, professar valores como bondade, empatia, altruísmo, gentileza, são mantras para uma proteção contra essa tragédia, mas é importante entender qual é essa "tragédia" da qual estou falando.

A única certeza que temos é a de que um dia iremos morrer. E se pode considerar um ponto de reflexão, saber que todos os seus esforços resultarão no mesmo final: ...

Diante disso, seria muito mais fácil você mandar tudo à merda e viver intensamente enquanto pode, certo? Talvez. As pessoas têm uma certa realização quando se dispõem a fazer o bem, a serem empáticos, gentis e altruístas. Há recompensa em vida. Daí a insistência de alguns em compartilhar ações de "bom coração".

Se formos pesar essas reflexões, a carga negativa que envolve aqueles que só pensam em si, é suficientemente explosiva como o tal inferno. Afinal, na hora final tudo se avalia e fica óbvio o resultado dessas escolhas ruins.

E então, vê-se a real tragédia da vida: é uma jornada cheia de percalços, tristezas, alegrias, muitos "sim" e "não", onde se pode optar por ser solidário ou egoísta, e que sempre acaba em samba, se você fizer as escolhas certas.

Um samba pode lhe dar a vida eterna, então, faça por merecer. Não se faz samba de gente ruim, concorda? "Iracema, você atravessou na contramão", por exemplo, foi um samba de um amor que se foi e não de uma mulher que foi atropelada. Assim conta a história. A história de uma moça que pode ter levado a vida com a intenção do bem em suas ações. Ou não.

Convido-lhe a refletir sobre esse tema e a deixar seu nome para guardar (eu hei de guardar seu nome, ou diz o dito popular: morre o homem fica a fama). O final, você já sabe que será o mesmo para todos. Eternize-se!

*Não sabia que meu amigo Paulinho havia partido essa madrugada. Nos corações de muitos, ele "virou samba" e será sempre lembrado.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Sobre trocas e crescimento

Um lagarto troca de pele por conta da pouca elasticidade de seu couro. É uma reação natural para facultar o crescimento do corpo. Isso também acontece com répteis, anfíbios e artrópodes. Reflito a respeito de "trocas evolutivas" na raça humana.

Há trocas para um crescimento intelectual, por exemplo. Não sei se "intelectual" seria o modo correto de designar a necessidade de algumas pessoas em melhorar como ser humano. O que cresce é o coração, a consciência do seu lugar no mundo, a relação com as pessoas.

Terça-feira voltava para casa após uma tentativa meio frustrada de acertar os pormenores sobre as aulas de teatro numa escola da cidade e, ao dobrar a esquina da 7 de setembro coma Washington Luiz, vi um homem solitário, empurrando seu carro. Parei a bicicleta de imediato e o ajudei a empurrar. O motor pegou no tranco, eu voltei para minha bike e retomei meu caminho.

Não havia necessidade do motorista completar o quarteirão e cruzar meu caminho outra vez, para me agradecer. Mas, ele o fez. Poderia ter seguido em frente, sem me importar com o esforço dele. Afinal, a rua estava deserta e empurrar o carro até a descida estava simples. Não me custou ser gentil.

Essa é a troca. O sentimento de saber avaliar que o mundo não irá resolver os SEUS problemas. Tem de ser você. A sua capacidade colocada a prova, pode lhe irritar e aborrecer, mas ninguém pode sofrer por você. Isso, de SEUS problemas, não deve influenciar o seu modo de agir com as pessoas. Troque de pele e CRESÇA.

Infelizmente, há trocas que não são tão benéficas assim. São trocas momentâneas, que só constroem dissabores. Pessoas com o egoísmo em alta rotação, deixando-o tomar conta de suas relações. São os "2 caras". Pessoas que transformam para atender esse egoísmo comandante. São "répteis" no pior sentido da palavra. Esses precisam muito mais da "troca de pele" verdadeira, onde crenças limitantes e conceitos egoístas são abandonados como uma casca seca e sem vida.

Mudar é uma necessidade. Tão importante quanto compreender que algumas pessoas levarão mais tempo para essa "troca". Algo como a primeira troca leva a gentileza e compaixão, e a segunda, a empatia e ao altruísmo.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Let's Just Breathe ou Sobre a Insistência de Amar

Eddie Vedder canta em uma balada de voz e violão do Pearl Jam: "Yeah, I'm a lucky man to count on both hands the ones I love", que numa tradução literal seria: "Sim, sou um cara de sorte que conta nas duas mãos aqueles que amo".

Fiz 60 anos ontem e acho que algo além de 10 pessoas me desejaram um feliz aniversário. Para dizer a verdade, prefiro assim. Nada daquelas mensagens de quem pouco ou nada interage comigo, destilando hipocrisia. Eu também sou assim: um hipócrita. Somos todos, essa é a verdade. É quase uma obrigação nos dias atuais.

É difícil você ser verdadeiramente sincero, pois opiniões podem ferir de morte o bando de idiotas que povoa a Terra. Porém, uso esse verso cantado por Vedder para colocar as mãos abertas diante dos olhos e então fazer o gesto mais complicado dos dias atuais: estender os braços e demonstrar o desejo de abraçar a todos. Porque não importa que o mundo não lhe ame, importa o que você deseja, o que você se esforça para praticar em relação às pessoas do mundo.

Uma grande campanha entre as cabeças ainda pensantes do planeta, seria algo como: "Adote um idiota". Como Pantaleão e Pedro Bó. Este último ainda era puro. O problema era Terta, que confirmava tudo. O pior cego é o que não quer enxergar. A campanha que é necessária, no entanto, é aquela que está nas ruas a quase dois mil anos e tem pouquíssimos adeptos. Diz ela: "Amai-vos uns aos outros". E nela reside a maior parte da hipocrisia.

Não devemos encher nosso copo de mágoas, porém. Temos de insistir em um propósito de fazer o BEM, sempre, como um plano traçado em que muito esforço e recursos foram empregados e seria muito pior parar. Eu faço isso, afinal, já enfiei 60 anos na missão de viver e aprender o suficiente para exercitar o amor e o BEM.

A missão é ingrata, pois você nunca atinge a excelência a tempo. E a cada dia que passa, seu tempo é mais curto, seu abraço é mais difícil e suas vontades são maiores. Não se renda. Não deixe de insistir. Há um Sol além dessas montanhas imensas que temos de vencer e lá do alto, toda essa caminhada deixa de ser difícil e dolorida. É apenas mais um dia e ninguém disse que seria fácil.

Sobre Abraços e Dignidade


Dignidade é a qualidade do que é nobre, consciente do próprio valor, a honra de uma pessoa. Aprendi na balada sobre isso, lá pelos 25, 26, nos tempos em que frequentar o Café Piu-Piu era minha necessidade de fim de semana. Alguém que não me lembro quem, me disse que as pessoas se sentem mais seguras se você perguntar o nome delas e dizer expressamente que "gosta de tratar as pessoas pelo nome". E lembro de outro amigo na conversa, comentar que quando aprendeu sobre vendas, o instrutor observou isso. 

Nós estamos sempre no processo de uma venda.  Tempo, atenção, carinho, alegria, ideias. O diálogo, mais hora menos hora, se transforma em uma venda. Sempre pensamos em troca, é óbvio. No entanto, nossa ânsia em ser aceito, em participar, em colaborar para o BEM comum, é sempre uma motivação de venda. Queremos que nosso interlocutor "compre" nossa opinião.  Na maioria das vezes, apenas por ouvir e considerar por alguns instantes. Aí reside a dignidade.

Aquele que devolve atenção ao próximo, concede a preciosidade das relações: a dignidade da equiparação. O nome da moda, é empatia, mas vejo coisas distintas. A empatia é mais íntima. A dignidade é o primeiro passo para a empatia, penso eu. E como disse Saramago, "é preciso criar o Dia dos Deveres Humanos".

É necessário cobrar dignidade de todos, mas principalmente, de si próprio. Nesses 60 anos, tenho exercitado isso no dia a dia, sem descanso. Considero-me um excelente aprendiz. Estou atento na maior parte do dia, para responder com atenção e cuidado. Excelente seria muita pretensão de minha parte. Um boníssimo aprendiz, digamos.

Olhe ao redor e veja quanta gente pode ser impactada por um gesto simples, como um sorriso, um desejo de bom dia e um abraço. Abraços são tão importantes que deveria-se instituir um horário específico, todo dia, para trocarmos um abraço. Algo como 18h18, por exemplo.

Já que existem narrativas sobre mundos distópicos, usemos essa possibilidade para um movimento disruptivo em nossos dias: um abraço amigo em um estranho, só para lhe entregar essa preciosa moeda chamada dignidade. Comecemos com um aperto de mãos, que a acham? A vergonha vai cedendo aos poucos e chegamos nos abraços. É exagero? Bom, eu comecei com sorrisos e "bom dia", portanto, apertos de mão estão ao meu alcance.

A Caravela no Asfalto

Não é, definitivamente, um barco. Trata-se de um pedaço de lata esmagado possivelmente pelas rodas de tantos automóveis que por ali transitaram e fim. Nem se pode dizer que lembra uma caravela, afinal. É preciso olhos atentos e boa quantidade de imaginação para captar a silhueta de uma caravela. A chamada “vela latina” não está bem recortada e mesmo as curvas leves da vela do mastro principal requerem um esforço mental, mas por bondade, caro leitor, peço que creia que se trata de uma caravela estilizada.

A analogia principal aqui é a do mar com o asfalto. Tudo o que se carrega do outro para o um. Afinal, hoje em dia se fala tanto no descaso humano com a preservação do planeta. Toneladas de lixo são despejadas no mar e boa parte delas, é varrida pelas chuvas que lavam o asfalto das cidades humanas. A caravela singra o asfalto com essa tenebrosa missão: carregar-nos a todos para a destruição.

E nesse meio tempo, os poetas vislumbram possibilidades em um encontro casual com um pedaço de lata retorcido no asfalto, semelhante a uma caravela singrando solitária os mares imaginários das noites das ilusões perdidas. Imagine o que quiser. Pode-se pensar nos amores que tiveram o ato final ou inicial, nos arrependimentos das palavras não ditas, os beijos não pedidos ou não roubados, as decisões cortantes que rompem histórias. Tudo borbulha em meio as ondas daquele asfalto onde a caravela imaginária singra, perdida, sem vento na popa.

Solidão, desespero, mágoa, amor, enfado, tristeza, esbórnia. O mar do asfalto segreda tantos sentimentos de tão diversos personagens que imaginar uma caravela através de um pedaço sujo de lata, é apenas mais um dos tantos delírios inúteis que fazem os homens escrever e escrever coisas sem sentido, ou recheadas de pontas soltas, que incomodam a mentes diversas.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Ouro de Tolo

Há um adjetivo que qualifica boa parte da raça humana de hoje em dia, muito mais pelo nosso nível de educação coletiva do que pela distinção dos indivíduos. Esse adjetivo é "sensível". Hoje, com o fracasso da civilização (aquela história de "tempos difíceis geram homens fortes, que geram tempos fáceis e homens fracos"), a sensibilidade não é mais uma característica distintiva e sim, algo por vezes pejorativo. Não considerem, nessa análise que proponho, os problemas psicossociais, tão em destaque nas análises comportamentais. Apenas e tão somente, considerem a capacidade de se encantar com o mundo ao seu redor, em um nível além do normal. A sensibilidade artística, digamos. É importante frisar que a arte é primeiramente, uma expressão de sensibilidade capaz de tirar você do lugar comum. Há absurdos, como a banana na parede, mas a ideia por vezes, é essa: o quão absurda pode ser a percepção humana? O quanto de atenção merece uma obra?

Ennio Morricone recebeu uma missão de Sérgio Leone, em 1966: fazer uma trilha para a cena onde Tuco (Eli Wallach) corre entre as sepulturas no cemitério, atrás do túmulo onde está o tesouro confederado. "É apenas um homem correndo pelo cemitério", teria dito Leone. "Não precisa ser tão dramática", teria dito após ouvir a música. "The Ectasy of Gold" é uma trilha tão icônica e poderosa, que reflete algo que "apenas um homem correndo" não conseguiria. A sensibilidade de Morricone em compreender o momento do personagem cômico de Wallach, tão próximo do "final do arco-íris", é genial.

Assisti o filme lá por 1980, na Sessão da Tarde. Não sei se alcancei esse impacto. Me lembrei dele a primeira vez que vi um concerto ao vivo do Metallica e quando li uma biografia de Clint Eastwood. Revi o filme e penso que atingi esse nível de sensibilidade. Principalmente por ter dado uma chance a mais para a arte me encantar.

Baixar a guarda e ouvir, ver, para tentar sentir, é natural. Damos um valor exagerado a nossas convicções. Algumas vezes, influenciados pelo sentido de pertencimento, pela rigidez de uma visão limitada por crenças. E hoje, estamos embutindo crenças limitantes que até deturpam a arte, como no caso de Tony Garrido e sua "Girassol".

A "banana na parede" foi leiloada por US$ 6,2 milhões. É absurdo, mas a sensibilidade do comprador lhe permite isso. Bill Gates já doou mais de US$ 100 bilhões para a caridade e prometeu doar 99% de sua fortuna até 2045. A sensibilidade atinge cada pessoa de uma maneira peculiar e única, pois somos peculiares e únicos. A sensibilidade hoje, é confundida com fraqueza. Escutamos a arte já pensando em onde ela ataca nossas crenças limitantes, deixando de interpretar, de ter sensibilidade de apreciar. Uma das opções, é óbvio, é ignorar. Porém, estamos correndo atrás de um "pote de ouro", pelo visto. O ouro dos tolos. "Ah, mas que sujeito chato sou eu ..."

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

O crime da "mentidade"

Verdade tem 7 letras. Mentira também. Porém, o que se prática no nosso país, é a "mentidade", que tem 8 e cada vez mais integrada ao nosso modo de vida. Antes, no entanto, deixe-me declarar que não discuto por políticas e muito menos por políticos. A reflexão é sobre comportamentos.

Há uma estatística que aponta 94 milhões de pessoas beneficiadas por algum programa assistencial do governo. Algo como a população do Egito. É inegável que a oposição use isso como crítica e o governo como apoio. O que me espanta, no entanto, é saber que há gente perfeitamente acomodada com essa situação. Não há peso na consciência em ter saúde, vitalidade e se valer da mentira travestida de verdade para sobreviver. Alguns, que realmente não tem saída e precisam de ajuda educacional, de saúde e cuidados especiais, às vezes tem menos assistência do que esses neo-mentirosos.

O absurdo do abuso é para os defensores de políticos. Me espanto é com o indivíduo se acostumar à mentira como meio de vida. "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" é um mantra sem valor entre esses "egípcios" e o crime que aponto no título, refere-se ao seguinte pensamento: a defesa do assistencialismo é uma compra de votos travestida de boa ação. Porém, o crime maior e mais aterrador, é o praticado contra si mesmo.

Há de se levar em conta, a desigualdade social, uma marca da sociedade brasileira. Há de se levar em conta a oportunização de alternativas, algo tão em desuso entre os assistidos egípcios. Mas, perceba: todas as atitudes, as falas, os bordões, são um teatro. Vivem uma mentira e bastam-se.

"Após a tempestade, vem a bonança", é outro mantra muito utilizado por aqueles que lutam por si, sem a "mentidade". Experienciar e tornar-se mais precavido, é o fruto dessa bonança. Pois as tempestades se repetem. A estabilidade é uma conquista efêmera. O mar é imenso e imprevisível. Como a vida. O que essas pessoas acostumadas a "mentidade" fazem, é imaginar-se no maior navio do mundo, tão pesado e poderoso a ponto de vencer as tempestades. Ainda assim, é o mar.

E, a propósito, "mentidade" tem 9 letras 😉

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Isso a TV não mostra


Me deparei com uma frase, ainda agora, e veio a mente essa nossa "apropriação por necessidade", tão comum hoje em dia. O "compartilhar" é na verdade uma apropriação. Poucos questionam o destino do fluxo, no entanto. É mais fácil seguir. De repente, um indivíduo tão comum como eu e você, dispara algo como "pisei na dobradinha". Isso é compartilhado pelos amigos, em cortes fora do contexto, vira um meme da turma e então extrapola as barreiras do sentido, adaptando-se às situações. As pessoas se apropriam de algo sem a menor preocupação com a origem e o que realmente se quis referenciar.

Aqui na cidade, por exemplo. Um amigo transformou uma saudação em algo pessoal que acabou se espalhando. "Bom dia, tudo bem?" diz alguém. Aí que ele sempre respondia "Bom cê", uma abreviação de "Bom dia, tudo, e você?" Isso se espalhou pela cidade e você escuta da boca das pessoas mais diversas, alguns que nem conhecem o autor. Claro, a cidade é pequena e a maioria deve conhecê-lo. Porém, nas viagens loucas da minha mente, fico pensando em crianças ouvindo e aprendendo esses memes linguísticos, sendo condicionados a seguir o fluxo sem questionar, sem descobrir antes o destino desse "bonde". E os comportamentos se repetem para a vida.

Repostei (apropriei-me) um vídeo do músico Lobão, que cita que a ofensa é muito mais culpa do ofendido do que do ofensor. Você não está plenamente resolvido com essa questão e por isso se ofende quando ela é imposta. Eu me ofendo constantemente com o uso da língua de modo "desleixado". Principalmente porque o sentido é jogado para escanteio: a pessoa que lhe saúda não quer saber da sua vida de verdade e se você está mesmo bem. É apenas educação. E você passaria por chato, se explicar como se sente. Antes que alguém se sinta ofendido, eu conheço o autor desde a adolescência e sei de suas intenções e a bondade de seu coração. Sua "criação" é antes de mais nada, uma marca. Um registro na história da cidade que poucos conseguirão repetir. Em se falando do português, da nossa língua, é reprovável.

No entanto, há alguns que realmente se importam com as pessoas e usam esse meme com bondade no coração. Inclusive o autor.

Nomes de Filmes

Quarta, por recomendação de minha filha, assisti 'Fences' (2016), crente que estava vendo o filme em que se baseou o primeiro trabal...