sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Ouro de Tolo

Há um adjetivo que qualifica boa parte da raça humana de hoje em dia, muito mais pelo nosso nível de educação coletiva do que pela distinção dos indivíduos. Esse adjetivo é "sensível". Hoje, com o fracasso da civilização (aquela história de "tempos difíceis geram homens fortes, que geram tempos fáceis e homens fracos"), a sensibilidade não é mais uma característica distintiva e sim, algo por vezes pejorativo. Não considerem, nessa análise que proponho, os problemas psicossociais, tão em destaque nas análises comportamentais. Apenas e tão somente, considerem a capacidade de se encantar com o mundo ao seu redor, em um nível além do normal. A sensibilidade artística, digamos. É importante frisar que a arte é primeiramente, uma expressão de sensibilidade capaz de tirar você do lugar comum. Há absurdos, como a banana na parede, mas a ideia por vezes, é essa: o quão absurda pode ser a percepção humana? O quanto de atenção merece uma obra?

Ennio Morricone recebeu uma missão de Sérgio Leone, em 1966: fazer uma trilha para a cena onde Tuco (Eli Wallach) corre entre as sepulturas no cemitério, atrás do túmulo onde está o tesouro confederado. "É apenas um homem correndo pelo cemitério", teria dito Leone. "Não precisa ser tão dramática", teria dito após ouvir a música. "The Ectasy of Gold" é uma trilha tão icônica e poderosa, que reflete algo que "apenas um homem correndo" não conseguiria. A sensibilidade de Morricone em compreender o momento do personagem cômico de Wallach, tão próximo do "final do arco-íris", é genial.

Assisti o filme lá por 1980, na Sessão da Tarde. Não sei se alcancei esse impacto. Me lembrei dele a primeira vez que vi um concerto ao vivo do Metallica e quando li uma biografia de Clint Eastwood. Revi o filme e penso que atingi esse nível de sensibilidade. Principalmente por ter dado uma chance a mais para a arte me encantar.

Baixar a guarda e ouvir, ver, para tentar sentir, é natural. Damos um valor exagerado a nossas convicções. Algumas vezes, influenciados pelo sentido de pertencimento, pela rigidez de uma visão limitada por crenças. E hoje, estamos embutindo crenças limitantes que até deturpam a arte, como no caso de Tony Garrido e sua "Girassol".

A "banana na parede" foi leiloada por US$ 6,2 milhões. É absurdo, mas a sensibilidade do comprador lhe permite isso. Bill Gates já doou mais de US$ 100 bilhões para a caridade e prometeu doar 99% de sua fortuna até 2045. A sensibilidade atinge cada pessoa de uma maneira peculiar e única, pois somos peculiares e únicos. A sensibilidade hoje, é confundida com fraqueza. Escutamos a arte já pensando em onde ela ataca nossas crenças limitantes, deixando de interpretar, de ter sensibilidade de apreciar. Uma das opções, é óbvio, é ignorar. Porém, estamos correndo atrás de um "pote de ouro", pelo visto. O ouro dos tolos. "Ah, mas que sujeito chato sou eu ..."

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