Há um adjetivo que qualifica boa parte da raça humana de hoje em dia, muito mais pelo nosso nível de educação coletiva do que pela distinção dos indivíduos. Esse adjetivo é "sensível". Hoje, com o fracasso da civilização (aquela história de "tempos difíceis geram homens fortes, que geram tempos fáceis e homens fracos"), a sensibilidade não é mais uma característica distintiva e sim, algo por vezes pejorativo. Não considerem, nessa análise que proponho, os problemas psicossociais, tão em destaque nas análises comportamentais. Apenas e tão somente, considerem a capacidade de se encantar com o mundo ao seu redor, em um nível além do normal. A sensibilidade artística, digamos. É importante frisar que a arte é primeiramente, uma expressão de sensibilidade capaz de tirar você do lugar comum. Há absurdos, como a banana na parede, mas a ideia por vezes, é essa: o quão absurda pode ser a percepção humana? O quanto de atenção merece uma obra?
Ennio Morricone recebeu uma missão de Sérgio Leone, em 1966: fazer uma trilha para a cena onde Tuco (Eli Wallach) corre entre as sepulturas no cemitério, atrás do túmulo onde está o tesouro confederado. "É apenas um homem correndo pelo cemitério", teria dito Leone. "Não precisa ser tão dramática", teria dito após ouvir a música. "The Ectasy of Gold" é uma trilha tão icônica e poderosa, que reflete algo que "apenas um homem correndo" não conseguiria. A sensibilidade de Morricone em compreender o momento do personagem cômico de Wallach, tão próximo do "final do arco-íris", é genial.
Assisti o filme lá por 1980, na Sessão da Tarde. Não sei se alcancei esse impacto. Me lembrei dele a primeira vez que vi um concerto ao vivo do Metallica e quando li uma biografia de Clint Eastwood. Revi o filme e penso que atingi esse nível de sensibilidade. Principalmente por ter dado uma chance a mais para a arte me encantar.
Baixar a guarda e ouvir, ver, para tentar sentir, é natural. Damos um valor exagerado a nossas convicções. Algumas vezes, influenciados pelo sentido de pertencimento, pela rigidez de uma visão limitada por crenças. E hoje, estamos embutindo crenças limitantes que até deturpam a arte, como no caso de Tony Garrido e sua "Girassol".
A "banana na parede" foi leiloada por US$ 6,2 milhões. É absurdo, mas a sensibilidade do comprador lhe permite isso. Bill Gates já doou mais de US$ 100 bilhões para a caridade e prometeu doar 99% de sua fortuna até 2045. A sensibilidade atinge cada pessoa de uma maneira peculiar e única, pois somos peculiares e únicos. A sensibilidade hoje, é confundida com fraqueza. Escutamos a arte já pensando em onde ela ataca nossas crenças limitantes, deixando de interpretar, de ter sensibilidade de apreciar. Uma das opções, é óbvio, é ignorar. Porém, estamos correndo atrás de um "pote de ouro", pelo visto. O ouro dos tolos. "Ah, mas que sujeito chato sou eu ..."

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