quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Somente Pensamentos Autorizados


"A realidade é a música do vazio", afirma Frank Wilczek, Prêmio Nobel de Física em 2004, ao elaborar uma hipótese sobre o Éter, o vácuo do espaço. Ele entende que, se as partículas elementares da matéria são vibrações, como indicam as últimas descobertas, então o "nada" é a ausência de vibração significativa, ou seja, o "silêncio da matéria".

Adoro viajar nesses raciocínios sobre física quântica, teórica e aplicada, mesmo tendo sido um aluno entre o ruim e o razoável na escola. Descobrir "do que" e "como" as coisas do mundo são feitas é muito interessante para mim. Porque conhecendo e compreendendo essas teorias, acabo por esmiuçar comportamentos e atitudes.

Há um sketch de humor, muito compartilhado a respeito do pensamento do homem casado. O humorista cita que a mulher deve compreender que "quando o marido diz que não está pensando em nada, realmente é isso que significa: nada". Um lapso, digamos, em que os neurônios silenciam. Como estar diante de um balcão de um comércio, aguardando ser atendido. Você fica ali, pensando em mil coisas, formulando teorias, parado/a e não ouve um pio sequer vindo do lado de dentro. Parece que o mundo parou diante de você.

É por isso que o silêncio é tão importante. Calar, quando o mundo exige uma resposta, é, antes de uma salva-guarda, a própria resposta. A mente se refugia por trás da porta onde se lê "apenas pessoal autorizado", não por medo. A ideia sempre deve ser preservar-se. Pense a respeito de suas discussões, por exemplo? Veja o quanto é ofensivo você discutir e subir o tom com as pessoas. Se você silencia diante de um argumento contrário às suas convicções, abre espaço para o raciocínio escarafunchar aquele argumento contrário até a exaustão.

Voltando a metáfora do balcão e da porta com o aviso por trás dele. Lá dentro, no silêncio, há toda uma maquinaria, uma biblioteca de situações, de experiências a serem reavaliadas diante de um argumento em contrário. Se você faz barulho, você se distancia da razão. Já falei aqui sobre o fio de água para encher o copo. Quanto mais próximo da fonte, menor o ruído.

Pela proposta de Wilczek, não existe "vazio", mas sim "silêncio", inércia. Mas não é "nada". Parmênides, filósofo grego, dizia que "se algo não pode ser falado, pensado ou relatado, é absurdo dizer que (por conta disso) não existe". Se juntarmos as duas visões (mesmo que sobre coisas distintas), entendemos que o mais correto é aceitar a ideia de que há coisas nesse mundo além da nossa compreensão. Com o passar do tempo, provavelmente, obtenhamos mais parâmetros e diretrizes para reavaliar esse conhecimento. Por hora, refugie-mo-nos no silêncio, atrás de nossos avisos de "somente pessoal autorizado", para maquinar sobre aquilo que não compreendemos.

Se creio, por exemplo, que meu Corsa é verde, apesar de constar "azul" no documento, é prudente maquinar minha compreensão das cores, experienciar, até encontrar uma argumentação convincente para mim e para os fabricantes sobre aquele tom de verde ou azul da lataria. Idem para outros embates filosóficos, políticos, religiosos e afins.


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