Não é, definitivamente, um barco. Trata-se de um pedaço de lata esmagado possivelmente pelas rodas de tantos automóveis que por ali transitaram e fim. Nem se pode dizer que lembra uma caravela, afinal. É preciso olhos atentos e boa quantidade de imaginação para captar a silhueta de uma caravela. A chamada “vela latina” não está bem recortada e mesmo as curvas leves da vela do mastro principal requerem um esforço mental, mas por bondade, caro leitor, peço que creia que se trata de uma caravela estilizada.
A analogia principal aqui é a do mar com o asfalto. Tudo o que se carrega do outro para o um. Afinal, hoje em dia se fala tanto no descaso humano com a preservação do planeta. Toneladas de lixo são despejadas no mar e boa parte delas, é varrida pelas chuvas que lavam o asfalto das cidades humanas. A caravela singra o asfalto com essa tenebrosa missão: carregar-nos a todos para a destruição.
E nesse meio tempo, os poetas vislumbram possibilidades em um encontro casual com um pedaço de lata retorcido no asfalto, semelhante a uma caravela singrando solitária os mares imaginários das noites das ilusões perdidas. Imagine o que quiser. Pode-se pensar nos amores que tiveram o ato final ou inicial, nos arrependimentos das palavras não ditas, os beijos não pedidos ou não roubados, as decisões cortantes que rompem histórias. Tudo borbulha em meio as ondas daquele asfalto onde a caravela imaginária singra, perdida, sem vento na popa.
Solidão, desespero, mágoa, amor, enfado, tristeza, esbórnia. O mar do asfalto segreda tantos sentimentos de tão diversos personagens que imaginar uma caravela através de um pedaço sujo de lata, é apenas mais um dos tantos delírios inúteis que fazem os homens escrever e escrever coisas sem sentido, ou recheadas de pontas soltas, que incomodam a mentes diversas.

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