Eu li Mary Shelley ali pelos anos 80, ou antes. E meu conhecimento juvenil não alcançou a profundidade da obra. A maneira como Guillermo del Toro apresenta a humanidade para a criatura é impactante. A gentileza encarnada em um ancião cego, para nos dizer que é vivendo e aprendendo com os percalços que se compreende que devemos ser gentis e compartilhar conhecimento sem medir quem o receberá. Uma jovem inglesa, filha de um filósofo e cheia de amigos amantes do 'porque' e dos livros, concebe sua obra-prima e expõe isso com clareza. Enquanto há compreensão e troca de conhecimentos e gentilezas, a paz só pode ser atormentada por terceiros com outra visão do mundo, que insistem em impor sua vontade sem respeitar as liberdades individuais.
A criatura sem nome ainda ensina outras várias lições. Me apeguei à sua maldição, no entanto. A imortalidade. Nós desejamos a vida e nos desgastamos nessa tola insistência em dobrar os outros a nossa vontade. Desejamos a imortalidade para manter nossa visão idílica de mundo perfeito, impondo nossos pontos de vista de forma egoísta e tacanha. Quando o modo de ser imortal, é morrer.
Minha mensagem de "bom dia" aos mais íntimos hoje, veio acompanhada da frase: "Você nunca saberá quantas vidas transformou. Mas elas saberão!" É isso. É transformar vidas, compartilhando conhecimento, gentileza e empatia. Esse é o caminho para ser imortal. Mary Shelley, no entanto, mostra-nos outro lado da imortalidade: o lado da solidão dos incompreendidos. Por isso tantos filósofos se recolheram na solidão como forma de desenvolver sua obra., para tornarem-se imortais pela sua obra e não apenas por ela. A vida e os raciocínios desenvolvidos ao longo dela os transformaram em imortais, pois nos mostraram o óbvio que passamos a não ver, arvorados em nossa vidinha comum, ansiosa e pueril. O mostro, a criatura, sofre por que compreende que estará sempre só, sendo consumido pela solidão, daí o subtítulo do livro de Mary Shelley: "O Prometeu Moderno", ou seja, o titã acorrentado que sobre com o abutre devorando seu fígado. Genial.
Devemos tentar, creio eu, a proposta pela gentileza, pela empatia, pela difusão do conhecimento. Fazer isso com disciplina, resiliência e sem 'entornar o caldo' diante da sequência aparentemente interminável de derrotas. Somos um punho diante de milhares de pontas de faca. E devemos sangrar sem medo, repetindo as ações de bondade com perseverança e alegria, sempre! Sejamos imortais em teimar pelo amor ao próximo. Não temos nada a perder, quando agimos assim.

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