sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Sobre tornar-se um Samba

A difícil arte de viver, é daquelas reflexões que nos faz rir da tragédia que somos nós. Claro que, professar valores como bondade, empatia, altruísmo, gentileza, são mantras para uma proteção contra essa tragédia, mas é importante entender qual é essa "tragédia" da qual estou falando.

A única certeza que temos é a de que um dia iremos morrer. E se pode considerar um ponto de reflexão, saber que todos os seus esforços resultarão no mesmo final: ...

Diante disso, seria muito mais fácil você mandar tudo à merda e viver intensamente enquanto pode, certo? Talvez. As pessoas têm uma certa realização quando se dispõem a fazer o bem, a serem empáticos, gentis e altruístas. Há recompensa em vida. Daí a insistência de alguns em compartilhar ações de "bom coração".

Se formos pesar essas reflexões, a carga negativa que envolve aqueles que só pensam em si, é suficientemente explosiva como o tal inferno. Afinal, na hora final tudo se avalia e fica óbvio o resultado dessas escolhas ruins.

E então, vê-se a real tragédia da vida: é uma jornada cheia de percalços, tristezas, alegrias, muitos "sim" e "não", onde se pode optar por ser solidário ou egoísta, e que sempre acaba em samba, se você fizer as escolhas certas.

Um samba pode lhe dar a vida eterna, então, faça por merecer. Não se faz samba de gente ruim, concorda? "Iracema, você atravessou na contramão", por exemplo, foi um samba de um amor que se foi e não de uma mulher que foi atropelada. Assim conta a história. A história de uma moça que pode ter levado a vida com a intenção do bem em suas ações. Ou não.

Convido-lhe a refletir sobre esse tema e a deixar seu nome para guardar (eu hei de guardar seu nome, ou diz o dito popular: morre o homem fica a fama). O final, você já sabe que será o mesmo para todos. Eternize-se!

*Não sabia que meu amigo Paulinho havia partido essa madrugada. Nos corações de muitos, ele "virou samba" e será sempre lembrado.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Sobre trocas e crescimento

Um lagarto troca de pele por conta da pouca elasticidade de seu couro. É uma reação natural para facultar o crescimento do corpo. Isso também acontece com répteis, anfíbios e artrópodes. Reflito a respeito de "trocas evolutivas" na raça humana.

Há trocas para um crescimento intelectual, por exemplo. Não sei se "intelectual" seria o modo correto de designar a necessidade de algumas pessoas em melhorar como ser humano. O que cresce é o coração, a consciência do seu lugar no mundo, a relação com as pessoas.

Terça-feira voltava para casa após uma tentativa meio frustrada de acertar os pormenores sobre as aulas de teatro numa escola da cidade e, ao dobrar a esquina da 7 de setembro coma Washington Luiz, vi um homem solitário, empurrando seu carro. Parei a bicicleta de imediato e o ajudei a empurrar. O motor pegou no tranco, eu voltei para minha bike e retomei meu caminho.

Não havia necessidade do motorista completar o quarteirão e cruzar meu caminho outra vez, para me agradecer. Mas, ele o fez. Poderia ter seguido em frente, sem me importar com o esforço dele. Afinal, a rua estava deserta e empurrar o carro até a descida estava simples. Não me custou ser gentil.

Essa é a troca. O sentimento de saber avaliar que o mundo não irá resolver os SEUS problemas. Tem de ser você. A sua capacidade colocada a prova, pode lhe irritar e aborrecer, mas ninguém pode sofrer por você. Isso, de SEUS problemas, não deve influenciar o seu modo de agir com as pessoas. Troque de pele e CRESÇA.

Infelizmente, há trocas que não são tão benéficas assim. São trocas momentâneas, que só constroem dissabores. Pessoas com o egoísmo em alta rotação, deixando-o tomar conta de suas relações. São os "2 caras". Pessoas que transformam para atender esse egoísmo comandante. São "répteis" no pior sentido da palavra. Esses precisam muito mais da "troca de pele" verdadeira, onde crenças limitantes e conceitos egoístas são abandonados como uma casca seca e sem vida.

Mudar é uma necessidade. Tão importante quanto compreender que algumas pessoas levarão mais tempo para essa "troca". Algo como a primeira troca leva a gentileza e compaixão, e a segunda, a empatia e ao altruísmo.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Let's Just Breathe ou Sobre a Insistência de Amar

Eddie Vedder canta em uma balada de voz e violão do Pearl Jam: "Yeah, I'm a lucky man to count on both hands the ones I love", que numa tradução literal seria: "Sim, sou um cara de sorte que conta nas duas mãos aqueles que amo".

Fiz 60 anos ontem e acho que algo além de 10 pessoas me desejaram um feliz aniversário. Para dizer a verdade, prefiro assim. Nada daquelas mensagens de quem pouco ou nada interage comigo, destilando hipocrisia. Eu também sou assim: um hipócrita. Somos todos, essa é a verdade. É quase uma obrigação nos dias atuais.

É difícil você ser verdadeiramente sincero, pois opiniões podem ferir de morte o bando de idiotas que povoa a Terra. Porém, uso esse verso cantado por Vedder para colocar as mãos abertas diante dos olhos e então fazer o gesto mais complicado dos dias atuais: estender os braços e demonstrar o desejo de abraçar a todos. Porque não importa que o mundo não lhe ame, importa o que você deseja, o que você se esforça para praticar em relação às pessoas do mundo.

Uma grande campanha entre as cabeças ainda pensantes do planeta, seria algo como: "Adote um idiota". Como Pantaleão e Pedro Bó. Este último ainda era puro. O problema era Terta, que confirmava tudo. O pior cego é o que não quer enxergar. A campanha que é necessária, no entanto, é aquela que está nas ruas a quase dois mil anos e tem pouquíssimos adeptos. Diz ela: "Amai-vos uns aos outros". E nela reside a maior parte da hipocrisia.

Não devemos encher nosso copo de mágoas, porém. Temos de insistir em um propósito de fazer o BEM, sempre, como um plano traçado em que muito esforço e recursos foram empregados e seria muito pior parar. Eu faço isso, afinal, já enfiei 60 anos na missão de viver e aprender o suficiente para exercitar o amor e o BEM.

A missão é ingrata, pois você nunca atinge a excelência a tempo. E a cada dia que passa, seu tempo é mais curto, seu abraço é mais difícil e suas vontades são maiores. Não se renda. Não deixe de insistir. Há um Sol além dessas montanhas imensas que temos de vencer e lá do alto, toda essa caminhada deixa de ser difícil e dolorida. É apenas mais um dia e ninguém disse que seria fácil.

Sobre Abraços e Dignidade


Dignidade é a qualidade do que é nobre, consciente do próprio valor, a honra de uma pessoa. Aprendi na balada sobre isso, lá pelos 25, 26, nos tempos em que frequentar o Café Piu-Piu era minha necessidade de fim de semana. Alguém que não me lembro quem, me disse que as pessoas se sentem mais seguras se você perguntar o nome delas e dizer expressamente que "gosta de tratar as pessoas pelo nome". E lembro de outro amigo na conversa, comentar que quando aprendeu sobre vendas, o instrutor observou isso. 

Nós estamos sempre no processo de uma venda.  Tempo, atenção, carinho, alegria, ideias. O diálogo, mais hora menos hora, se transforma em uma venda. Sempre pensamos em troca, é óbvio. No entanto, nossa ânsia em ser aceito, em participar, em colaborar para o BEM comum, é sempre uma motivação de venda. Queremos que nosso interlocutor "compre" nossa opinião.  Na maioria das vezes, apenas por ouvir e considerar por alguns instantes. Aí reside a dignidade.

Aquele que devolve atenção ao próximo, concede a preciosidade das relações: a dignidade da equiparação. O nome da moda, é empatia, mas vejo coisas distintas. A empatia é mais íntima. A dignidade é o primeiro passo para a empatia, penso eu. E como disse Saramago, "é preciso criar o Dia dos Deveres Humanos".

É necessário cobrar dignidade de todos, mas principalmente, de si próprio. Nesses 60 anos, tenho exercitado isso no dia a dia, sem descanso. Considero-me um excelente aprendiz. Estou atento na maior parte do dia, para responder com atenção e cuidado. Excelente seria muita pretensão de minha parte. Um boníssimo aprendiz, digamos.

Olhe ao redor e veja quanta gente pode ser impactada por um gesto simples, como um sorriso, um desejo de bom dia e um abraço. Abraços são tão importantes que deveria-se instituir um horário específico, todo dia, para trocarmos um abraço. Algo como 18h18, por exemplo.

Já que existem narrativas sobre mundos distópicos, usemos essa possibilidade para um movimento disruptivo em nossos dias: um abraço amigo em um estranho, só para lhe entregar essa preciosa moeda chamada dignidade. Comecemos com um aperto de mãos, que a acham? A vergonha vai cedendo aos poucos e chegamos nos abraços. É exagero? Bom, eu comecei com sorrisos e "bom dia", portanto, apertos de mão estão ao meu alcance.

A Caravela no Asfalto

Não é, definitivamente, um barco. Trata-se de um pedaço de lata esmagado possivelmente pelas rodas de tantos automóveis que por ali transitaram e fim. Nem se pode dizer que lembra uma caravela, afinal. É preciso olhos atentos e boa quantidade de imaginação para captar a silhueta de uma caravela. A chamada “vela latina” não está bem recortada e mesmo as curvas leves da vela do mastro principal requerem um esforço mental, mas por bondade, caro leitor, peço que creia que se trata de uma caravela estilizada.

A analogia principal aqui é a do mar com o asfalto. Tudo o que se carrega do outro para o um. Afinal, hoje em dia se fala tanto no descaso humano com a preservação do planeta. Toneladas de lixo são despejadas no mar e boa parte delas, é varrida pelas chuvas que lavam o asfalto das cidades humanas. A caravela singra o asfalto com essa tenebrosa missão: carregar-nos a todos para a destruição.

E nesse meio tempo, os poetas vislumbram possibilidades em um encontro casual com um pedaço de lata retorcido no asfalto, semelhante a uma caravela singrando solitária os mares imaginários das noites das ilusões perdidas. Imagine o que quiser. Pode-se pensar nos amores que tiveram o ato final ou inicial, nos arrependimentos das palavras não ditas, os beijos não pedidos ou não roubados, as decisões cortantes que rompem histórias. Tudo borbulha em meio as ondas daquele asfalto onde a caravela imaginária singra, perdida, sem vento na popa.

Solidão, desespero, mágoa, amor, enfado, tristeza, esbórnia. O mar do asfalto segreda tantos sentimentos de tão diversos personagens que imaginar uma caravela através de um pedaço sujo de lata, é apenas mais um dos tantos delírios inúteis que fazem os homens escrever e escrever coisas sem sentido, ou recheadas de pontas soltas, que incomodam a mentes diversas.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Ouro de Tolo

Há um adjetivo que qualifica boa parte da raça humana de hoje em dia, muito mais pelo nosso nível de educação coletiva do que pela distinção dos indivíduos. Esse adjetivo é "sensível". Hoje, com o fracasso da civilização (aquela história de "tempos difíceis geram homens fortes, que geram tempos fáceis e homens fracos"), a sensibilidade não é mais uma característica distintiva e sim, algo por vezes pejorativo. Não considerem, nessa análise que proponho, os problemas psicossociais, tão em destaque nas análises comportamentais. Apenas e tão somente, considerem a capacidade de se encantar com o mundo ao seu redor, em um nível além do normal. A sensibilidade artística, digamos. É importante frisar que a arte é primeiramente, uma expressão de sensibilidade capaz de tirar você do lugar comum. Há absurdos, como a banana na parede, mas a ideia por vezes, é essa: o quão absurda pode ser a percepção humana? O quanto de atenção merece uma obra?

Ennio Morricone recebeu uma missão de Sérgio Leone, em 1966: fazer uma trilha para a cena onde Tuco (Eli Wallach) corre entre as sepulturas no cemitério, atrás do túmulo onde está o tesouro confederado. "É apenas um homem correndo pelo cemitério", teria dito Leone. "Não precisa ser tão dramática", teria dito após ouvir a música. "The Ectasy of Gold" é uma trilha tão icônica e poderosa, que reflete algo que "apenas um homem correndo" não conseguiria. A sensibilidade de Morricone em compreender o momento do personagem cômico de Wallach, tão próximo do "final do arco-íris", é genial.

Assisti o filme lá por 1980, na Sessão da Tarde. Não sei se alcancei esse impacto. Me lembrei dele a primeira vez que vi um concerto ao vivo do Metallica e quando li uma biografia de Clint Eastwood. Revi o filme e penso que atingi esse nível de sensibilidade. Principalmente por ter dado uma chance a mais para a arte me encantar.

Baixar a guarda e ouvir, ver, para tentar sentir, é natural. Damos um valor exagerado a nossas convicções. Algumas vezes, influenciados pelo sentido de pertencimento, pela rigidez de uma visão limitada por crenças. E hoje, estamos embutindo crenças limitantes que até deturpam a arte, como no caso de Tony Garrido e sua "Girassol".

A "banana na parede" foi leiloada por US$ 6,2 milhões. É absurdo, mas a sensibilidade do comprador lhe permite isso. Bill Gates já doou mais de US$ 100 bilhões para a caridade e prometeu doar 99% de sua fortuna até 2045. A sensibilidade atinge cada pessoa de uma maneira peculiar e única, pois somos peculiares e únicos. A sensibilidade hoje, é confundida com fraqueza. Escutamos a arte já pensando em onde ela ataca nossas crenças limitantes, deixando de interpretar, de ter sensibilidade de apreciar. Uma das opções, é óbvio, é ignorar. Porém, estamos correndo atrás de um "pote de ouro", pelo visto. O ouro dos tolos. "Ah, mas que sujeito chato sou eu ..."

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

O crime da "mentidade"

Verdade tem 7 letras. Mentira também. Porém, o que se prática no nosso país, é a "mentidade", que tem 8 e cada vez mais integrada ao nosso modo de vida. Antes, no entanto, deixe-me declarar que não discuto por políticas e muito menos por políticos. A reflexão é sobre comportamentos.

Há uma estatística que aponta 94 milhões de pessoas beneficiadas por algum programa assistencial do governo. Algo como a população do Egito. É inegável que a oposição use isso como crítica e o governo como apoio. O que me espanta, no entanto, é saber que há gente perfeitamente acomodada com essa situação. Não há peso na consciência em ter saúde, vitalidade e se valer da mentira travestida de verdade para sobreviver. Alguns, que realmente não tem saída e precisam de ajuda educacional, de saúde e cuidados especiais, às vezes tem menos assistência do que esses neo-mentirosos.

O absurdo do abuso é para os defensores de políticos. Me espanto é com o indivíduo se acostumar à mentira como meio de vida. "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" é um mantra sem valor entre esses "egípcios" e o crime que aponto no título, refere-se ao seguinte pensamento: a defesa do assistencialismo é uma compra de votos travestida de boa ação. Porém, o crime maior e mais aterrador, é o praticado contra si mesmo.

Há de se levar em conta, a desigualdade social, uma marca da sociedade brasileira. Há de se levar em conta a oportunização de alternativas, algo tão em desuso entre os assistidos egípcios. Mas, perceba: todas as atitudes, as falas, os bordões, são um teatro. Vivem uma mentira e bastam-se.

"Após a tempestade, vem a bonança", é outro mantra muito utilizado por aqueles que lutam por si, sem a "mentidade". Experienciar e tornar-se mais precavido, é o fruto dessa bonança. Pois as tempestades se repetem. A estabilidade é uma conquista efêmera. O mar é imenso e imprevisível. Como a vida. O que essas pessoas acostumadas a "mentidade" fazem, é imaginar-se no maior navio do mundo, tão pesado e poderoso a ponto de vencer as tempestades. Ainda assim, é o mar.

E, a propósito, "mentidade" tem 9 letras 😉

Nomes de Filmes

Quarta, por recomendação de minha filha, assisti 'Fences' (2016), crente que estava vendo o filme em que se baseou o primeiro trabal...