quinta-feira, 30 de maio de 2024

O TOTALITARISMO VELADO

Você abre uma mensagem de vídeo no whatsapp. Uma rua qualquer, em um lugar que não interessa. No rodapé da tela, há um emoji de riso escancarado e lágrimas nos olhos. O som, no fundo, é de uma risada quase forçada. Se você for um bom entendedor, não é necessário ver o restante. A barra de duração está no início e a cena continua sem nenhuma ação. Se você for bom entendedor, já começa a rir e interrompe a mensagem. Mas você é um imbecil, na visão do remetente. O emoji e a trilha sonora estão ali para lhe ensinar a rir de coisas que um bom entendedor reconheceria como qualquer outra coisa, menos uma cena de humor.

Então, você tem um espaço para divulgar suas reflexões, para expressar o modo como vê o mundo. Vai até lá e descreve a ridícula situação do vídeo e em instantes, é achincalhado pelos comentaristas de plantão, argumentando que o mundo está muito chato e que esses “intelectuais de merda” estão estragando a diversão das pessoas, com seus critérios “de sarrafo alto”. E então você se resigna e apaga seu post. Afinal, o mundo gira ao redor de quem recebe mais “likes”.

Dia desses, vi a paixão exacerbada do brasileiro ser colocada em julgamento. Um jogador de futebol apareceu em uma foto, usando a camisa de outro clube. Se a camisa fosse de uma equipe sem expressão, ou do exterior, ou de outro esporte, não haveria celeuma. Mas, como era de um clube rival... Desconsideraram-se os problemas de renovação de contrato, que se arrastam por meses. Desconsiderou-se a inusitada situação de ser preterido até do banco de reservas nos jogos. Desconsiderou-se a individualidade. “Não precisamos dos seus serviços, mas não ouse vestir-se como bem entender.”

O mundo gira ao redor de quem recebe mais “likes” e no lugar de ser uma salvaguarda, é uma prisão. Você tem que rir como ri a “imensa maioria” (um pleonasmo aceitável, mas que evito na medida do impossível). Você está preso a convenções. Você é apenas um produto do status quo. Não ouse apreciar o seu próprio tempo. Estamos, cada vez mais, sob um totalitarismo velado, imposto pelas consequências. E isso, cheira a revolução.

Quando o horizonte parece limpo

O sol domina o céu

Esplendoroso

A brisa começa a soprar

Inevitável

A resposta não está na paisagem

Um comentário:

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