sexta-feira, 31 de maio de 2024

OVERDOSES COTIDIANAS

Sempre me disseram que tudo o que é demais, faz mal. Uma constatação atiçou meu pensamento logo pela manhã. Enquanto cuidava de me encapotar para enfrentar a ida até a padaria (sou extremamente “friorento”), ouvia as notícias no jornal da manhã. Quantas coisas em excesso são embutidas em nossos cérebros logo cedo, não?

A curiosidade do ser humano foi erroneamente educada pela mídia, desde os anos 90 do século retrasado — 1896, precisamente — quando Marconi fez a primeira transmissão via rádio. Se bem que, desde que existe civilização, a curiosidade nos atiça mais quando a notícia se refere à maldade.

Não bastassem as catástrofes no sul do país, a mídia agora se volta para os desabrigados diante da onde de frio. Não contesto a necessidade de se divulgar pontos de doação, para quem pode prestar solidariedade. Mas precisamos ser lembrados? Amar o semelhante não é uma regra?

Depois, uma notícia sobre a comunidade LGBTQIA+. Outra. Na sequência, a repercussão de mais uma taxação pelo governo. Outra. Tudo que é excessivo faz mal. Impostos, nem se fala. A necessidade de inclusão, é urgente, sem dúvida. Mas a mídia parece assumir toda a culpa pela repressão. Bombardeia os ouvidos e olhos com um sem número de informações que uma cultura de dez milhões de anos não está acostumada a notar.

Enfim, essa insistência acaba criando um ranço nos mais conservadores e, no lugar de provocar a revisão dos conceitos e o bem, provoca antagonismo. Provoca não, fomenta! O ódio germina e o cotidiano fica mais e mais contaminado, viciado, terminal. Guerra, fome, peste e morte, deveriam compor apenas uma linha do noticiário geral.

— Mas isso não vende!

Você já experimentou vender o BEM, cidadão? Já experimentou montar sua barraca e expor esse produto? Perseverar, como fazem os esperançosos voluntários com a sacolinha de doações na feira livre. Se todos vissem o BEM, todo dia, não teriam saída a não ser interessar-se por ele.

A presença do BEM relaxa tensões, imprime franqueza aos sorrisos, dissemina-se como uma praga. Experimente cair na gargalhada do nada, em um ambiente tenso: insista, rindo diante dos rostos admirados. É contagioso! O BEM é contagioso.

As Overdoses Cotidianas (grande nome para uma banda, hein?) só preenchem nosso espírito de tristeza, antagonismo velado contra o próximo (as ditas “minorias” inclusive), nos arrastam para um lado da briga, quando não deveríamos ter lado algum. Somos todos uma espécie e precisamos pensar sempre no BEM comum. É utopia? Bem, nunca experimentamos nos drogar com a bondade, que eu saiba. Quem sabe não é uma viagem?

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