Sempre me disseram que tudo o que é demais, faz mal. Uma constatação
atiçou meu pensamento logo pela manhã. Enquanto cuidava de me encapotar para
enfrentar a ida até a padaria (sou extremamente “friorento”), ouvia as notícias
no jornal da manhã. Quantas coisas em excesso são embutidas em nossos cérebros
logo cedo, não?
A curiosidade do ser humano foi erroneamente educada pela
mídia, desde os anos 90 do século retrasado — 1896, precisamente — quando Marconi
fez a primeira transmissão via rádio. Se bem que, desde que existe civilização,
a curiosidade nos atiça mais quando a notícia se refere à maldade.
Não bastassem as catástrofes no sul do país, a mídia agora
se volta para os desabrigados diante da onde de frio. Não contesto a
necessidade de se divulgar pontos de doação, para quem pode prestar
solidariedade. Mas precisamos ser lembrados? Amar o semelhante não é uma regra?
Depois, uma notícia sobre a comunidade LGBTQIA+. Outra. Na
sequência, a repercussão de mais uma taxação pelo governo. Outra. Tudo que é excessivo
faz mal. Impostos, nem se fala. A necessidade de inclusão, é urgente, sem
dúvida. Mas a mídia parece assumir toda a culpa pela repressão. Bombardeia os
ouvidos e olhos com um sem número de informações que uma cultura de dez milhões
de anos não está acostumada a notar.
Enfim, essa insistência acaba criando um ranço nos mais
conservadores e, no lugar de provocar a revisão dos conceitos e o bem, provoca
antagonismo. Provoca não, fomenta! O ódio germina e o cotidiano fica mais e
mais contaminado, viciado, terminal. Guerra, fome, peste e morte, deveriam compor
apenas uma linha do noticiário geral.
— Mas isso não vende!
Você já experimentou vender o BEM, cidadão? Já experimentou
montar sua barraca e expor esse produto? Perseverar, como fazem os esperançosos
voluntários com a sacolinha de doações na feira livre. Se todos vissem o BEM,
todo dia, não teriam saída a não ser interessar-se por ele.
A presença do BEM relaxa tensões, imprime franqueza aos sorrisos,
dissemina-se como uma praga. Experimente cair na gargalhada do nada, em um
ambiente tenso: insista, rindo diante dos rostos admirados. É contagioso! O BEM
é contagioso.
As Overdoses Cotidianas (grande nome para uma
banda, hein?) só preenchem nosso espírito de tristeza, antagonismo velado
contra o próximo (as ditas “minorias” inclusive), nos arrastam para um lado da
briga, quando não deveríamos ter lado algum. Somos todos uma espécie e
precisamos pensar sempre no BEM comum. É utopia? Bem, nunca experimentamos nos
drogar com a bondade, que eu saiba. Quem sabe não é uma viagem?