domingo, 30 de novembro de 2025

Nomes de Filmes

Quarta, por recomendação de minha filha, assisti 'Fences' (2016), crente que estava vendo o filme em que se baseou o primeiro trabalho escrito e publicado dela em psicologia. Só que o primeiro trabalho publicado dela, foi sobre outro filme: "Straw- Até a Última Gota". Me confundi com o nome em português. 

A despeito da psicologia envolvida, que é o tema do trabalho, o que me atrai a comentar é o título em inglês e a adaptação em português. Começando por 'Um Limite Entre Nós', que, na minha opinião, é inadequado. Talvez, 'Os Limites de um Homem', fosse enigmático e revelador ao mesmo tempo. A tradução literal do título original, 'Cercas' mostra bem isso. Afinal de contas, é sobre todas as barreiras que uma personalidade difícil constrói ao longo da história de sua vida.

O cinema, ou melhor, a Ancine (será que ela mesmo?), acumula várias situações assim, de erros e acertos. Vejam, por exemplo, 'Jaws' (1975). O cartaz mostra uma mulher na linha d'água, em posição de nado e um enorme focinho de tubarão apontado para ela. 'Maxila' ou 'Mandíbula', não teria o impacto de 'Tubarão'.

Há exemplos diversos. E há grandes "correções" também. Dois clássicos espetaculares, coincidência ou não, com Morgan Freeman atuando neles, foram muito bem "traduzidos": 'The Shawshank Redemption' e 'The Bucket List' foram lançados aqui como 'Um Sonho de Liberdade' e 'Antes de Partir'. "A redenção de Shawshank" aliás, tem a ver com o título da história que inspirou o filme: "Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank", um conto de Stephen King que fala justamente sobre um plano genial para fugir da prisão. Já "Lista de Desejos" não é, na minha opinião, tão bom como "Antes de Partir".

Há outros exemplos, claro. Alguns, bem incomuns. E voltamos ao título do filme que eu deveria ter assistido, ao ser recomendado pelo trabalho. 'Straw' em tradução literal quer dizer 'canudo' ou 'palha'. No entanto, a expressão idiomática, artifício muito usado no inglês, quer dizer justamente o que o título em português anuncia: "Até a Última Gota". A expressão "the last straw", seria em tradução livre: a gota d'água.

Como cantou Chico Buarque, lá nos idos de 1975, "deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa. E qualquer desatenção, faça não: pode ser a gota d'água". Já denunciava, então, a desigualdade entre homens e mulheres. Na letra, especificava o amor, a relação, os dissabores de um compromisso. No filme, há muito mais do que isso. Recomendo. Tanto "Straw", como "Fences". Aliás, traço até um paralelo com "Um Dia de Fúria" (1993) onde Michael Douglas faz algo muito parecido com o que fez Taraji Henson. Esse também, com um título em inglês bem direto: "Falling Down", "desmoronando".

Sigo procurando ler nas entrelinhas, sempre sem julgar. Enxergar cada vez mais fundo, ser cada vez mais curioso. Há magia nisso, sabiam?

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Somente Pensamentos Autorizados


"A realidade é a música do vazio", afirma Frank Wilczek, Prêmio Nobel de Física em 2004, ao elaborar uma hipótese sobre o Éter, o vácuo do espaço. Ele entende que, se as partículas elementares da matéria são vibrações, como indicam as últimas descobertas, então o "nada" é a ausência de vibração significativa, ou seja, o "silêncio da matéria".

Adoro viajar nesses raciocínios sobre física quântica, teórica e aplicada, mesmo tendo sido um aluno entre o ruim e o razoável na escola. Descobrir "do que" e "como" as coisas do mundo são feitas é muito interessante para mim. Porque conhecendo e compreendendo essas teorias, acabo por esmiuçar comportamentos e atitudes.

Há um sketch de humor, muito compartilhado a respeito do pensamento do homem casado. O humorista cita que a mulher deve compreender que "quando o marido diz que não está pensando em nada, realmente é isso que significa: nada". Um lapso, digamos, em que os neurônios silenciam. Como estar diante de um balcão de um comércio, aguardando ser atendido. Você fica ali, pensando em mil coisas, formulando teorias, parado/a e não ouve um pio sequer vindo do lado de dentro. Parece que o mundo parou diante de você.

É por isso que o silêncio é tão importante. Calar, quando o mundo exige uma resposta, é, antes de uma salva-guarda, a própria resposta. A mente se refugia por trás da porta onde se lê "apenas pessoal autorizado", não por medo. A ideia sempre deve ser preservar-se. Pense a respeito de suas discussões, por exemplo? Veja o quanto é ofensivo você discutir e subir o tom com as pessoas. Se você silencia diante de um argumento contrário às suas convicções, abre espaço para o raciocínio escarafunchar aquele argumento contrário até a exaustão.

Voltando a metáfora do balcão e da porta com o aviso por trás dele. Lá dentro, no silêncio, há toda uma maquinaria, uma biblioteca de situações, de experiências a serem reavaliadas diante de um argumento em contrário. Se você faz barulho, você se distancia da razão. Já falei aqui sobre o fio de água para encher o copo. Quanto mais próximo da fonte, menor o ruído.

Pela proposta de Wilczek, não existe "vazio", mas sim "silêncio", inércia. Mas não é "nada". Parmênides, filósofo grego, dizia que "se algo não pode ser falado, pensado ou relatado, é absurdo dizer que (por conta disso) não existe". Se juntarmos as duas visões (mesmo que sobre coisas distintas), entendemos que o mais correto é aceitar a ideia de que há coisas nesse mundo além da nossa compreensão. Com o passar do tempo, provavelmente, obtenhamos mais parâmetros e diretrizes para reavaliar esse conhecimento. Por hora, refugie-mo-nos no silêncio, atrás de nossos avisos de "somente pessoal autorizado", para maquinar sobre aquilo que não compreendemos.

Se creio, por exemplo, que meu Corsa é verde, apesar de constar "azul" no documento, é prudente maquinar minha compreensão das cores, experienciar, até encontrar uma argumentação convincente para mim e para os fabricantes sobre aquele tom de verde ou azul da lataria. Idem para outros embates filosóficos, políticos, religiosos e afins.


segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Prometeu Moderno

Eu li Mary Shelley ali pelos anos 80, ou antes. E meu conhecimento juvenil não alcançou a profundidade da obra. A maneira como Guillermo del Toro apresenta a humanidade para a criatura é impactante. A gentileza encarnada em um ancião cego, para nos dizer que é vivendo e aprendendo com os percalços que se compreende que devemos ser gentis e compartilhar conhecimento sem medir quem o receberá. Uma jovem inglesa, filha de um filósofo e cheia de amigos amantes do 'porque' e dos livros, concebe sua obra-prima e expõe isso com clareza. Enquanto há compreensão e troca de conhecimentos e gentilezas, a paz só pode ser atormentada por terceiros com outra visão do mundo, que insistem em impor sua vontade sem respeitar as liberdades individuais.

A criatura sem nome ainda ensina outras várias lições. Me apeguei à sua maldição, no entanto. A imortalidade. Nós desejamos a vida e nos desgastamos nessa tola insistência em dobrar os outros a nossa vontade. Desejamos a imortalidade para manter nossa visão idílica de mundo perfeito, impondo nossos pontos de vista de forma egoísta e tacanha. Quando o modo de ser imortal, é morrer. 

Minha mensagem de "bom dia" aos mais íntimos hoje, veio acompanhada da frase: "Você nunca saberá quantas vidas transformou. Mas elas saberão!" É isso. É transformar vidas, compartilhando conhecimento, gentileza e empatia. Esse é o caminho para ser imortal. Mary Shelley, no entanto, mostra-nos outro lado da imortalidade: o lado da solidão dos incompreendidos. Por isso tantos filósofos se recolheram na solidão como forma de desenvolver sua obra., para tornarem-se imortais pela sua obra e não apenas por ela. A vida e os raciocínios desenvolvidos ao longo dela os transformaram em imortais, pois nos mostraram o óbvio que passamos a não ver, arvorados em nossa vidinha comum, ansiosa e pueril. O mostro, a criatura, sofre por que compreende que estará sempre só, sendo consumido pela solidão, daí o subtítulo do livro de Mary Shelley: "O Prometeu Moderno", ou seja, o titã acorrentado que sobre com o abutre devorando seu fígado. Genial.

Devemos tentar, creio eu, a proposta pela gentileza, pela empatia, pela difusão do conhecimento. Fazer isso com disciplina, resiliência e sem 'entornar o caldo' diante da sequência aparentemente interminável de derrotas. Somos um punho diante de milhares de pontas de faca. E devemos sangrar sem medo, repetindo as ações de bondade com perseverança e alegria, sempre! Sejamos imortais em teimar pelo amor ao próximo. Não temos nada a perder, quando agimos assim.

Nomes de Filmes

Quarta, por recomendação de minha filha, assisti 'Fences' (2016), crente que estava vendo o filme em que se baseou o primeiro trabal...