Experimente tornar-se invisível. Não é difícil. Exclua a acessibilidade aos seus dados pessoais e descubra quem realmente se importa em interagir com você. Primeiro, tenha certeza do seguinte: aqueles que se julgam mais próximos e que, por conta desse seu experimento, entendem que você exagera, ficarão ofendidos. Os que, por ocorrência fortuita, interagiram contigo a um dia ou dois, após longa ausência, pedirão desculpas para daqui a uma semana, tornarem a lhe ignorar.
É exagero meu, sem dúvidas. Mas o exagero vem com propósito: demonstrar como estamos nos tornando escravos da tecnologia. Sim, porque se a tecnologia nos orientar, nosso dia transcorre sem incidentes. Imagine — se ainda tiver acesso a sua imaginação — acordar com notificações sobre um dia especial. O dia do santo X, o mesmo da igreja do seu bairro. E, também, o dia em que se comemora um evento de escala global. E ainda, o aniversário dos únicos gêmeos que você mantém uma amizade frequente. Por último, é o dia em que você completa mais um ano sem fumar, ou outro ano de trabalho.
Ser notificado e recorrer à tecnologia para lembrar de tudo isso, é uma comodidade da vida moderna. Mas é também, uma falência. Um pecado mortal — não católico, mas evolutivo — em relação às benesses que esse nosso corpo humano nos proporciona. Não se usa mais o cérebro como se deveria. Recorremos à tecnologia como uma muleta. E quando a energia acaba, nosso cérebro se desliga.
Muito mais do que me queixar por poucos se lembrarem de um alô, no último 13 de outubro, os relatos de quem sofre com o apagão em São Paulo motivam esse texto. Por conta da tempestade e da ineficiência da concessionária de energia, sofre-se quase que mortalmente. Órfãos. Boa parte, desesperadamente perdidos. Esquecidos que, além de redes sociais, o aparelho em suas mãos é também um telefone e pode-se falar através dele, com o outro lado do mundo — se necessário for.

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