Eu tinha oito para nove anos, quando vi um cara cantando em inglês na TV preto e branco de casa, espremendo um tubo gigante de pasta de dente com as pernas. O sujeito tinha pintura nos olhos. Grandes borrões de tinta preta que quase os escondiam, como os buracos dos olhos em um crânio. Depois, em outra música, o mesmo cara aparecia com uma enorme cobra ao redor do pescoço. Isso foi em 1974 e foi a primeira vez que notas distorcidas emitidas pelas cordas de uma guitarra elétrica fizeram sentido para meus neurônios.
Comecei a prestar atenção nas músicas da TV, nas preferências das minhas irmãs e nas que ouvia por acaso na rua. Sempre que aparecia uma guitarra, minha atenção redobrava. Então, certo dia, ouvi no carro de um amigo do meu irmão, a guitarra de Jimmy Page. A canção era “Black Dog” e ele baixou o som do toca-fitas para perguntar:
— Cadê seu irmão?
— Saiu com aquela morena que estava conversando com vocês.
Ele balançou a cabeça em negativa e sorriu.
— Tá fazendo nada?
— Tô não.
— Sobe aí. Vamos dar uma volta.
— Que música é essa?
— Isso é rock. Rock’n’roll!
E a partir daquela noite, rodando pelas ruas da cidade deserta, que ouvi Led Zeppelin pela primeira vez. Não sabia o nome da música e só guardei o “tanananã-nanã-nam” para contar a um amigo meu que deveria saber do que eu falava. E sim, ele sabia. A coleção de discos do irmão dele era imensa. É ainda, a maior em que já pus os olhos. Vinil e CD.
— Se você gostou da segunda do lado A, vai ficar doido com a quarta música.
Falava de “Stairway to Heaven”. Mas o engraçado da coisa toda, era nosso nível de inglês sofrível. Enquanto “cachorro preto” tinha algo a ver com o diabo, por conta do terror “perdurante” de ter visto “O Exorcista” no cinema, duas vezes; “escadaria para o céu” era a remissão. Depois vieram outras tolices juvenis, claro. “Smoke on the Water” falava sobre fumar maconha na banheira. Daí para pior.
Em 1983 fui ao show do KISS no Morumbi. Ituzaingó, inesquecível busão da madrugada paulistana que nos salvou e levou até uma distância percorrível a pé até em casa, ao Tatuapé. Não minha, pois ainda não tinha me transformado em paulistano. Mas com os caras da Rua São Bernardo, conheci Iron Maiden e AC/DC. Meu irmão gostava de Queen e pediu que eu gravasse fitas K7 para ele.
Era engenhoso alocar as músicas para “caber”. Outros shows vieram, comecei a comprar discos, aprender um pouco mais de inglês, ler mais a respeito de tudo o que me interessava. Agora, estou prestes a começar um programa na rádio da cidade, falando do que ouvi e li a respeito do rock'n'roll nesse tempo todo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário