Vejo a cidade amanhecer quase todo dia e é nas pessoas mais
simples que viceja a esperança. Tem de vir de algum lugar. Quem pega seu carro
e vai até a padaria providenciar seu café da manhã, nem sempre tem o mesmo
espírito da moça de uniforme, empurrando seu carrinho e varrendo a sarjeta.
As pessoas que passam no caminhar apressado em direção à
saída da cidade — sei disso por já participei disso —, têm um sorriso no rosto
por conta de suas certezas: o dia pode ser diferente, o MEU emprego está me
aguardando e quando o dia do pagamento chegar, MEU nome será festejado por meus
credores, pois quito minhas contas. Vários são os motivos e não ficarei
citando-os.
A ideia principal é que me interessa: acordar com esperança
de um dia melhor, de cumprir com as expectativas planejadas e sobreviver para
poder sonhar. Seja com o próximo final de semana, seja com uma compra especial,
uma viagem, uma festa. O brilho nos olhos está lá, firme, forte e sacudido.
Mas há os insatisfeitos, os tristes. Sair da cama é excruciante,
pelo visto. Enfrentar os problemas e responsabilidades é um dilema. A falha no
funcionamento do raciocínio é tão paralisante, que não se enxerga onde se está.
Onde você acordou, cidadão? Não vislumbre a imagem na sua resposta e sim a
situação. Reformulando a pergunta: Em que situação você abriu os olhos para o
novo dia?
É pena que não tenhamos um despertar súbito, como uma bolha
de sabão estourando, por exemplo. Abrir os olhos e puxar o ar e de imediato,
todas as engrenagens do corpo e da mente acendem seus leds e tudo começa a
funcionar de repente. A felicidade e a esperança entrariam junto a primeira
respiração do novo dia (e por que não mentalizar isso, hein?), nos fazendo
reviver num estalar de dedos.
Porém, algumas pessoas escolhem o NÃO. O “bom” do
cumprimento, não segrega o real desejo de que tudo seja especial de novo, feliz
de novo, cheio de esperança de novo. São pessoas que devem amar moda sertaneja,
pelo visto. Aquela celeuma de amores perdidos, bebedeiras solitárias, dor de
cotovelo, etc. Pessoas que adoram ver uma notícia ruim.
A música, na minha opinião, cumpre uma função muito especial
nesse despertar feliz. Acordo todo dia com uma música diferente na boca. Como
um comportamento do sistema nervoso autônomo, o mesmo que controla a respiração
e os batimentos cardíacos. É automático para mim. E mesmo que a música seja um
blues desesperado e triste, a emoção que o permeia é o sorriso de uma Clara
Nunes, bradando “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!”
O positivismo, é tão importante como o ar que respiramos. Não acredite em mim, experimente você mesmo e veja a coisa funcionar.



