quinta-feira, 1 de agosto de 2024

O CLIMÃO


 A postagem comemorava um evento proveitoso de aprendizado, junto às amigas e um passo importante na carreira de empreendedorismo. As finanças em casa estavam no limite e se aproximava o tempo daquelas despesas inevitáveis, como exames periódicos e as despesas de formatura da filha mais velha.

Mas eis que o marido comentou, curto e grosso:

— Retire a referência a esse cara. É melhor ficar longe dele, de hoje em diante!

A referência era a um dos instrutores do curso que aparecia na fotografia. Você escreve o texto e coloca o sinal de arroba para marcar a pessoa. E a irritação do marido tinha motivos políticos. A polarização e a imbecilidade, tomam conta da cidade e não é de bom-tom, fazer essas declarações. Ainda que sejam subjetivas.

O caso é que, pormenores precisam ser analisados. O primeiro e mais gritante, não diz respeito ao embate político e sim, ao comportamento misógino da maioria dos homens. Manifestar-se, ainda que focando na conquista, na vitória do aprendizado sobre a incompetência, da inteligência sobre a ignorância, pelo ponto de vista único e exclusivo do comportamento adquirido da civilização patriarcal, é “pecaminoso”.

A mulher não se manifestou, sequer por um segundo, politicamente. Comemorou, sim, sua conquista do conhecimento, da expertise. A intenção era manifestar para suas amigas/amigos e seguidores, a conquista de mais excelência para seu produto e mostrar que se tratava de uma microempresária preocupada em evoluir a si e ao seu negócio. Mas o pretenso envolvimento político do instrutor, foi julgado como desabonador pelo marido e ponto final.

Que raiz maldita é essa que invadiu a nossa árvore e suprimiu nossa capacidade de discernimento? Sim, pois certas “ervas” conseguem tomar conta de um solo fértil e impedir que a grande árvore floresça e dê frutos. Há uma infestação generalizada em nossa sociedade. Pequenas comunidades, como é o caso, dividem-se clamorosamente, como se o mundo fosse acabar no dia da divulgação do resultado das urnas. Os optantes derrotados, desaparecerão e a cidade irá sobreviver apenas com o lado vencedor.

A empreendedora da vez, terá uma redução considerável no número de seus clientes, afinal, vende apenas para o lado vencedor. Seria algo tão idiota como “não se come mais arroz aqui em casa. O arroz é plantado, colhido e beneficiado pelo pessoal que apoia o partido X e nós somos do partido Y. Aqui, todo dia tem sopa de legumes.”

Uma cidade com menos de quinze mil habitantes está se esfacelando por conta dessa disputa imbecil. Em primeiro de janeiro, pouco importa quem ocupará a cadeira no prédio azul. Você terá de acordar e enfrentar os seus boletos, batalhar por seus sonhos, comemorar suas vitórias, sorrir e tocar a sua vida do mesmo jeito de sempre. Não é “A” ou “B” que irá resolver a sua vida.

E que seja banida para sempre esse comportamento patriarcal de orientar as mulheres sobre o voto. Já são suficientemente competentes para saber o que fazer sozinhas.

2 comentários:

  1. Nosso Mal de Siécle, a polarização. Candidatos assumem ares de divindade e eleitores se convertem em fãs apaixonados. Como diria o mestre Nelson Rodrigues, os idiotas dominarão o mundo não por serem capazes ou mais fortes, mas por serem muitos. Parabéns e fraterno abraço.

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